domingo, 5 de março de 2017


Sempre as sextas


Na calada da noite ela via a lua chegar, sempre sentada na varanda as horas escorrendo tão vagarosamente que pareciam não terminar. Era sempre assim em noites de lua cheia quando ele saia, para visitar os amigos, ou quem sabe virar bicho. Riu, para si mesmo, pelo pensamento enviesado…. Às sextas-feiras era o dia dele se encontrar com os amigos, colocar a conversa em dia, tomar uma cervejinha, desopilar. Era assim que ele justificava, desopilar...
Virar bicho ficou lá nas histórias do passado junto a tantas outras de almas penadas… Talvez fosse a lua, pensou, Eram em noites iguais as essas que sempre ouvia aquelas histórias.
Olhou o relógio pela enésima vez e viu que já era tarde, passava das vinte e duas. Resolveu entrar, tomar um banho e ler um pouco, ele certamente se atrapalhou com a hora. Não sentia ciúmes, sempre acreditou que, entre pessoas adultas, não precisava de subterfúgios ou mentiras. Mas, ele vinha se atrasando já a um bom tempo, isso ela já tinha notado.
De volta a sala já tomado o banho e já lido uma revista quase toda, o coração acelera, para e fica a ouvir ele chegar. Observa que o coração ainda dispara apesar dos anos juntos.
— Oi, você, ainda acordada? Desculpa, não vi a hora passar
— Realmente, fica difícil vê as horas quando estamos enredados em coisas importantes. Observou olhando para ele displicentemente.
Ele se aproximou um pouco e ela se encostou no seu ombro sendo, automaticamente, afastada por ele.
— Você me assustou!
— Não quis assustá-la, apenas estou suado e você está com cara que saiu do banho, respondeu ele.
Foram ambos para o quarto, ele dirigindo-se ao banheiro enquanto deixava pelo caminho sapatos, roupas e gritava:
— Tem alguma coisa feita? Tô com fome de bicho
— Vou providenciar, respondeu sorrindo e dirigindo-se para a cozinha… era algo conhecido esse comportamento, entre eles.
Lanche pronto para dois, mesa posta, volta para chamá-lo. Ele nu, a abraça e faz o amor previsível. Depois voltam para o banheiro e tomam banho, juntos, Ao voltar para o quarto ela vê o telefone dele a vibrar e piscar. Pega-o observa que há mensagem no zap, curiosa o entrega enquanto pergunta?
— Quem será, esta hora?
— Não sei, preciso abrir primeiro
Abri a mensagem e fita desconcertado o celular
— Diz, quem é? Insiste, agora mais assustada que curiosa.
Ele não fala nada, está transtornado. Simplesmente entrega para ela o telefone. Ela lê a mensagem e completamente surpresa, o olha sem nada dizer. Baixa a cabeça e passam são cinco anos de vida em comum, dividindo tudo: despesas, alegrias, medos. Cinco anos de amor dedicados por ela sem nenhum questionamento. Um casamento perfeito segundos os amigos mais invejosos. Renuncia de viagens, filhos, amizades desfeitas. Lê mais uma vez, como quem quer confirmar o que vê. Para, olha fixamente para ele e diz nervosamente:
— Corre, corre, seu filho esta nascendo
— Não pense… Começa ele a falar, como quem quer justificar algo. Ela o interrompe com os olhos ainda fixo na mensagem.
— Não penso, termino! Hoje, aqui, agora, algo que nunca existiu ou quem sabe até existiu, mais que já deve ter terminado há muito tempo e eu não percebi.
Ela simplesmente, engole a decepção, devolve o celular, pega a bolsa e saiu, deixando-o além de surpreso intrigado com o que via.



Umburana de Cheiro

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