Final de 1971 começo de 1972, vestida numas calças US Top – desbotadas a base de água sanitária entrava no ônibus da Progresso com a alma coberta e desbotada pelas lágrimas – a caminho do Recife, deixava Petrolina ao das músicas de Roberto Carlos “Eu só tenho um caminho e Amada amante” e Bee Gees—Lonely Days entre tantas outras lindas músicas do momento.
Estava calçada, muito triste e apreensiva, com um sapato Conga, branco com fitilhos no lugar do cadarço cor-de-rosa. Cheguei atrasada e minha mãe já se encontrava na cadeira a minha espera. Tinha fugido, pela última vez de casa, para me despedir de algo que levaria comigo para sempre.
Quem me olhava via uma menina que, apesar da rebelde, nunca quis esconder a imagem, estereotipada feminina, gostava de ser mulher enfeitada de rosa ou da cor que quisesse, chorar a hora que me covilhense, ser frágil sendo forte, conforme o contexto.
Meus cabelos já estavam curtos, bem curtos como se quisessem cortar aquela etapa tão dolorida e ao mesmo tempo desejada por mim… sair da minha cidade, deixar meus amigos, minhas ruas cheias dos meus passos era um pouco demais para aquela moça magra e confiante, apesar de inocente, até então.
Dormia no pensionato com uma estudante que era apaixonada por Chico Buarque de Holanda e que por isso forrava a parede, em frete a minha cama, com fotos coloridas, do moço, me obrigando a sonhar com ele quase todas as noites….
Nas ruas dos primeiros dias do Recife surgiam os telefones públicos até hoje conhecidos como orelhões. Mas ainda não conseguia ligar direto para casa! Era preciso pedir um interurbano dar o número e esperar o milagre de ouvir uma voz desejada e distante.
Os recém-lançados aparelhos de TV a cores viam-se em todas as vitrines de lojas da Conde da Boa Vista. A revista Ele e Ela trazia na capa “O Sexo segundo os jovens” e eu ri sozinha por lembrar que até pouco tempo era tabu falar sobre isso… embalada pela voz de Roberto Carlos, cantando detalhe, foleei a revista assim como um revide ao meu passado.
Depois comprei o Compacto Duplo do rei e mandei para Petrolina. De um lado Detalhes do outro Tudo certo como dois e dois são cinco, ou seja, feito para mim.
Os automóveis que circulavam era a Veraneio (os Coelhos tinham uma), o Volks SP (um esportivo da Volkswagen por quem fiquei apaixonada), o Corcel GT, o Galaxie e o Opala Cupê SS. Surgindo também o Brasília.
Na TV via-se as séries norte-americanas como Bat Masterson, Família Dó Ré Mi, Batman, Daniel Boone e Terra de Gigantes.
Francisco Cuoco e Regina Duarte eram sucessos garantidos de audiência. Ele pelo jeito galã e ela pela sua feminilidade e beleza era chamada a “namoradinha do Brasil” faziam os papéis principais, Selva de Pedra salvo engano.
Fui ao São Luis assisti Cabaré, O Destino do Poseidon e O Poderoso Chefão. Nesse cinema assisti vários filmes, era meu caminho para casa quando passei a morar em Boa Viagem. Certa feita quando ia super atrasada, num sábado à tarde, para o ESUDA, para fazer um simulado quis cortar caminho entrando por trás do São Luiz. A rua estava lotada por cadeiras e mesas com jovens que bebiam e conversavam animadamente. Nos braços trazia os livros e cadernos, no ombro a bolsa… O vestino era um vermelho curto de estrelas brancas trespassados, o cabelo já bem comprido estava atado com uma presilha. Foi quando senti uma forte ventania, para não cair os livros segurei-os fortemente de encontro ao peito. O cabelo desatou e foi todo para frente, o vestido abriu-se completamente e eu fiquei ali a mercê dos gentis rapazes que sem dó nem piedade diziam: calma menina, eu pego seus livros, outro completando eu pego seus cabelos e eu, só de raiva ou com a força da timidez (se é que existe), larguei tudo no chão, prendi os cabelos o vestido, peguei os livros, levantei o queixo e fui embora brigando com o vento! Até hoje quando passo por perto lembro daquele episódio e associo aos ventos de Petrolina quando usavam da mesma malvadeza e levantavam minha saia próximo a catedral.
Estudava ao som dos cantores Jorge Ben, Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Caetano Veloso e o grupo Novos Baianos que frequentemente tocavam nas rádios da época. A foi Elis Regina, fazia enorme sucesso com os clássicos: Águas de Março, Casa no Campo e Nada Será Como Antes.
Em 1972 os Novos Baianos, lança Acabou Chorare, considerado um dos melhores trabalhos da MPB da história. O grupo era formado por Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo que trazia nos cabelos as cores do arco ires e era tida pelas puritanas do pensionato, onde morava, como perdida… Até hoje canto com o mesmo entusiasmo as músicas Brasil Pandeiro e Preta Pretinha.
Assisto encantada Michael Jackson cantando seu sucesso mundial Ben e fico a imaginar se aquela criança iria, continuar com aquela voz. Mas a música romântica que mais me animava e fazia esquecer ou melhor, mandar as lembranças de Petrolina para longe o fundo do meu coração era Rock and Roll Lullaby, de B. J. Thomas.
Abismada olhava aquelas moças, quando saia tarde do ESUDA, colégio que estudava e percorria grande parte da Conde da Boa Vista, às 19:00 h com roupas supercurtas, calcinhas da cor dos vestidos a se pendurarem nas portas dos carros que passavam vagarosamente. Achava-as corajosas além de, claro, desinibidas.
Depois descobri que eram profissionais do sexo fazendo “Trottoir”… Isso era mais uma novidade para mim, ainda não se via nada igual na Petrolina que deixei. Fiquei perplexa enquanto a colega sorria da minha cara!
Podíamos fazer compras em lojas de departamento como Lobras, Americanas, Mesbla e Viana Leal, hoje sou amiga da filha do dono da loja, uma linda e competente psiquiatra. Na época quando tinha algum dinheiro ia comer uma banana split em uma casa de chá muito chic que tinha perto, enquanto ouvia-se um bom piano. Foi então que aprendi a gostar de chá, era mais barato e me proporcionava a mesma alegria. No pensionato usavam eletrodomésticos e eletroeletrônicos como as geladeiras Prospérrimo, a TV Telefunken e o aparelho de som Polivox.
Depois de algumas ida e vindas a Petrolina, fui me envolvendo com a grande cidade… Já não achava o mar tão agressivo, mas, o rio São Francisco ele jamais conseguiu substituir e afora os familiares era o único que me esperava.

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