domingo, 26 de março de 2017

"Nego d'água” me chamou
de cima da ribanceira
queria mostrar o rio
naquela hora primeira
era bem manhãzinha
o sol ainda estava frio
o rio silencioso
soluçava no baixio...
Senti a dor das águas
a se arrastando pelas pedras
o medo do “Nego d'água”
em desaparecer na terra
sem deixar sequer, de seu,
as lembranças nas donzelas…
Ouvi o canto triste
de um sabiá brejeiro
saudoso despedia-se do rio
que em um sumidouro penetrava
voltando ao útero da terra
Pensei nas serpentes aladas
amarradas pelos fios
da cabeça da Santa Virgem,
que aos poucos se quebravam
nas entranhas do meu rio,
Chorei antecipando
as lágrimas dos ribeirinhos
dormindo os sonos instáveis
que antecedem aos pesadelos...
Molhei o rio com minhas lágrimas
pedi perdão ao “Nego d' água’'
mergulhei por inteiro
libertando de uma vez
a serpente assujeitada


Umburana de Cheiro

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