quinta-feira, 30 de março de 2017

Quero uma vida louvável,
dessas que nunca se esquece.
Tenho uma vida possível assim,
como tudo acontece….
Vou navegando para meu porto de destino
zarpei na em pleno olho d'água, por todo curso naveguei,
me aproximo da foz e ainda não me encontrei
Tomara um dia ser mar
ou quem sabem, retornar
fio d'água, riacho, rio
e terminar o que comecei….


Umburana de Cheiro

domingo, 26 de março de 2017

"Nego d'água” me chamou
de cima da ribanceira
queria mostrar o rio
naquela hora primeira
era bem manhãzinha
o sol ainda estava frio
o rio silencioso
soluçava no baixio...
Senti a dor das águas
a se arrastando pelas pedras
o medo do “Nego d'água”
em desaparecer na terra
sem deixar sequer, de seu,
as lembranças nas donzelas…
Ouvi o canto triste
de um sabiá brejeiro
saudoso despedia-se do rio
que em um sumidouro penetrava
voltando ao útero da terra
Pensei nas serpentes aladas
amarradas pelos fios
da cabeça da Santa Virgem,
que aos poucos se quebravam
nas entranhas do meu rio,
Chorei antecipando
as lágrimas dos ribeirinhos
dormindo os sonos instáveis
que antecedem aos pesadelos...
Molhei o rio com minhas lágrimas
pedi perdão ao “Nego d' água’'
mergulhei por inteiro
libertando de uma vez
a serpente assujeitada


Umburana de Cheiro

Na vida tudo tem começo e fim…. Mas, o que mais nos surpreende é esse nosso aleamento de entender que começo e fim começam tudo junto! E, assim, vamos jogando para o futuro o nosso final como se ele chegasse de repente. Então quando acontece de pessoas queridas irem embora, nunca nos conformamos em perdê-las…. Ficamos tristes, muitas vezes revoltados, porém na nossa ida nunca pensamos. 
 Ver uma mãe ir embora é sempre uma surpresa, uma dor, uma solidão insana! Mas o que está acontecendo é apenas a volta de alguém para casa. É muito triste por mais idosa ou doente que esteja não queremos que se vá, é um pedaço grande de nós que vai na frente e a dor é tão grande que ficamos meio alheio a tudo, como se fosse um sonho ruim, rezamos para que o sol apareça e que tudo volte a ser como antes….
Passamos a lembrar de coisas remotas, vividas em plena cumplicidade, coisas tristes e alegres…. Ouvimos nitidamente o riso dela, chegamos a senti-la mais próximo que antes….
Mas com o passar dos dias vamos nos acostumamos a certeza e a fé nós consola e passamos a conviver com essa eterna falta, como os coxos aprendem a caminhar sem uma perna, o cego sem a visão….
Vamos entendendo que a vida, desta forma, está, aos poucos, nos preparando para voltar para casa.
Primos com um afeto de irmã amorosa que lhes abraço e digo da solidariedade da minha dor... Que rezo para que o conforto chegue rápido Naquele que nos criou, nos colocou nesse mundo e que nos espera, no final da nossa jornada, com Seus braços abertos....
Um dia de domingo, dia de homenagear o Sol, o dia do Senhor, consagrado pela igreja primitiva, Constantina, e em 324 d.c., tornou-se lei. Bem antes em 164 d.c. o cristão Justino Mártir declarou: “O sábado é uma marca vergonhosa colocada sobre os judeus pelo senhor Deus, um identificador do castigo que bem merecem”. Constantino ordenou que todo império descansasse no dia do sol “Que todos os juízes, todos os habitantes da cidade, os mercadores e artífices, descansem no venerável dia do sol (die solis). Não obstante, atendam os lavradores completa liberdade ao cultivo dos campos" . Que este domingo e todos que hão de vir nos traga a reflexão em busca da paz interior e que os raios do Sol penetrem em nossos espíritos dando-nos a liberdade do amor, pois, só ele, o amor, liberta e faz de nós seres humanos... Um bom domingo para todos Umburana de Cheiro

sexta-feira, 24 de março de 2017

Ontem fiquei chocada... Sai com meu companheiro e resolvemos comer alguma coisa. Eram sete horas da noite escolhemos uma lojinha simpática que servia Açai. Nos sentamos, escolhemos o prato e ficamos a conversar aguardando... Guedes resolveu lavar as mãos e enquanto ele ficou ausente notei os gritos que vinham de uma mesa vizinha. Olhei e vi duas adolescentes que comiam, conversavam, falavam ao telefone, riam, tudo ao mesmo tempo, como só adolescentes sabem fazer. Então o telefone de uma tocou e ela atendeu da forma aborrescente de sempre: - oi, fala... O que?... Cala a boca, fala baixo (isso ela aos gritos), tá bom, tá bom.... Eu falei pra você, não viu? ... Tá doida? Fala baixo..., tá histérica? Olha o zap mãe, tá cega é? Olha o zap... Fui... E desligou dizendo para a amiga: velho, é histérica... eu falei pra ela... poxa é doida... E assim continuaram rindo, comendo, falando no celular aos gritos, tudo ao mesmo tempo... E eu pensando, quando foi que chamei minha mãe de doida? Histérica? Será que estou fora de moda?????????????????????????? Sei não!
Ser árvore, ser mulher
um pedaço de canela
erva-doce ou jasmim
na vida daquele ou daquela
Ser Maria, ou joana
Mãe, amiga e gentil
ser o fruto que se quer
ter os filhos que quiser
nos meses de maio ou abril
Ser do Sertão a sombra fresca
o perfume embriagador,
alimento em plena seca,
do mamão doce amargor...
Ter flores em pleno janeiro,
ou quem sabe em fevereiro
saber amar, como ama
a Umburana de Cheiro
Umburana de Cheiro

quinta-feira, 23 de março de 2017

Olhando para esta charge me veio o seguinte questionamento: por que relacionamos a traição conjugal com os cornos e chifres dos animais?
No nosso dia a dia já vimos muitos, marido serem chamados de “chifrudos”, ouvimos muitas piadas preconceituosas e tomamos conhecimentos de muitas tragédias em função do que esse adjetivo. Todo significado que uma palavra adquire, fora do seu sentido natural, está sempre ligada a fatos, circunstâncias ou situações e assim aparecem as "gírias". O que são chifres no sentido real? São os apêndices córneos que protegem a fronte de certos animais, esses apêndices servem, também, para defesa. Mas, por que na nossa cultura passa a ser, também, traição conjugal? Muitos dizem ser por conta da figura do “capeta” que se vê representado no catolicismo por uma figura bizarra de um ser com chifres e rabo com um tridente na ponta. E, por ser a traição contra um dos mandamentos de Deus, estaria bem representado, outros preferem fazer alusão os chifres presentes no touro pela liberdade apresentada pela vaca, ela não se limita a um único macho como recomenda as normas sociais humanas.
Mas, o interessante, é que nada disto é verdade ou só a verdade. A palavra chifre para denominar traição conjugal tem origem legal: o Código Filipino de 1603, a pedido do rei Felipe II, que vigorava no Brasil desde a sua criação até a Independência, dizia que todo marido que flagrasse a esposa em adultério e cujo adúltero não fosse nobre, o marido "ofendido" deveria lavar a honra matando o seu desafeto. Se assim não o fizesse, deveria usar em público algo semelhante a um chapéu ornado com dois chifres, para que todos o reconhecessem como um homem que não “honrou” a sua condição de macho. Mas, se o adúltero fosse nobre, o marido traído teria que aceitar. O código Filipino era uma reformulação do Código Manuelino que vigorou em Portugal e no Brasil de 1513 a 1569, mantendo praticamente a mesma estrutura das Ordenações Manuelinas, sofrendo vários acréscimos. Eram cinco livros que continham os regimentos dos magistrados, oficiais de justiça, regulava as relações entre Estado e Igreja, continha processo civil e comercial, direito das pessoas, das coisas e direito penal. A medida que o país desenvolvia a mentalidade instituída em lei pelo Código Filipino avançou até recentemente (final do século XX e início do século XXI) a mulher adúltera poderia até ser presa; o homem que, casasse, descobrisse que a mulher não era virgem poderia devolvê-la à família e anular o matrimônio. Apesar dessa “peça” jurídica se tornar sem efeito legal, a mentalidade ainda não se extinguiu no todo e muitas pessoas que se acham modernas se comportam tal qual como se estivessem em plena Idade Média não é verdade?
Voltando a Charge a figura do Congresso no lugar dos cornos do Boi, tem tudo a ver… Ou não? Umburana de Cheiro

domingo, 19 de março de 2017





Quero falar de coisas
que simples
dessas que alegram a alma
nos trazem calma e alegria de viver...
Acordo e vejo o dia de tão lindo
é poesia que não dá para fazer
Em manchete vejo o mundo
gritos, roucos e profundos
que faz tudo estremecer
Aqui perto vejo fome
de comida, justiça, amor
daqueles que de tanta dor
já nem se sentem perecer
Umburana de Cheiro
Quando nasci alguém deve ter falado: é uma menina! Outros devem ter pensado é mais uma menina... Cresci em um mundo machista e preconceituoso e hoje, já uma avó, vejo aflita que continuo nele.
Naquele mundo onde o que vale é a lei do mais forte... E quem é o mais forte? O que tem mais dinheiro, o branco, o bem-apessoado...
Quem se enquadra neste perfil? O homem varonil do meu Brasil brasileiro….
E as meninas que ainda nascem e ainda ouvem o mesmo grito ou pensamento? É uma menina, coitada... O que será do futuro delas além da procriação, um Direito natural compulsório, sobre o qual não tem nenhum Direito Legal de interromper?
Mas tudo mudou dizem alguns. Mudou para quem? Pergunto eu. Para meninas ricas, brancas, bonitas?
Não é verdade, respondem alguns…. Vejam quantas são vitoriosas, quantas fazem faculdades, quantas são famosas... Quantas? Quantas? A bem da verdade nós, nos acostumamos com pouco, mas com tão pouco que vibramos com as migalhas...
Pinçando um exemplo: as cotas estão ai, batemos palmas e saímos em defesa delas nas ruas…. Por que não saímos em defesa de um ensino gratuito de qualidade para todos?
Por que não se decreta o fim da escola particular? Quem quiser estudar, rico ou pobre, teria que se matricular na escola pública….Quem não quiser, que leve seus filhos para fora. Estudem, se formem e depois, se quiserem voltar, terão que passar por uma revalidação de diploma...
Fui professora do ensino básico e do ensino superior. Ensinei em um curso de elite (medicina) e sabe quantos cotistas encontrei? Vários, oriundos de quais escolas? Escolas de referência, escolas militares, escola de lugares onde só havia uma escola e nesta, estudava o filho do Prefeito, do Juiz…. E, onde, mesmo assim, era selecionados (os alunos) por turmas: turma A, B, C, D... Qual turma você estudava querido? Turma A professora...
Conta-se, nos dedos alunos que vieram de uma escola pública "comum"... Isso só para fugir a regra...
Os que encontrei, tiveram bolsas em escola de disciplinas isoladas, a maioria. Outros que quiseram ou querem se formar em medicina, procuram as escolas particulares, onde o preço exorbitante os obrigam a dever para o resto das suas vidas ao FIES ou algo assim.
Outro exemplo? Saúde. Nós temos o SUS, A Unidade de Saúde da Família. Sim, mas quem procura? Apenas aqueles que tem como plano de saúde o SUS e se veem obrigados a procurá-lo e, por conta disso, pouco funciona... Um SUS criado por brasileiros representando todos os municípios e classes sociais. Um SUS que tem como princípios a Universalidade, Integralidade, Equidade... Um SUS com vocação de plenitude, onde os planos particulares seriam apenas e tão somente complementares... Que para se fazer bem funcionar é formado por suas vigilâncias: a do controle das doenças transmissíveis; das doenças e agravos não transmissíveis; a da situação de saúde, ambiental em saúde, da saúde do trabalhador e a sanitária. A Vigilância Sanitária daria conta de um “conjunto de ações capazes de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e da circulação de bens, e da prestação de serviços do interesse da saúde, abrangendo o controle de bens de consumo, que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, compreendidas todas as etapas e processos, da produção ao consumo, e o controle da prestação de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde”. Cada dia que se passa, vemos o desrespeito e o descaso desta Lei reconhecida pela CF88.
O SUS é o nosso ou deveria ser o nosso fiscal maior... As suas vigilâncias (braços) foram podados, enfraquecidos e hoje temos esses abusos que vemos ai: carne podre, no mercado; frutos envenenados; recrudescimento de doenças, violência, barbari… Abrimos a caixa de Pandora e a cada acontecimento nocivo, em vez de irmos a rua e gritarmos para fazer valer a nossa Lei, dizemos é cortina de fumaça... é cortina de fumaça... Nunca estivemos tão bem!!! Sei não… Umburana de Cheiro

Ob.: para saber mais sobre o SUS
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pacto_saude_volume13.pdf




terça-feira, 14 de março de 2017

Final de 1971 começo de 1972, vestida numas calças US Top – desbotadas a base de água sanitária entrava no ônibus da Progresso com a alma coberta e desbotada pelas lágrimas – a caminho do Recife, deixava Petrolina ao das músicas de Roberto Carlos “Eu só tenho um caminho e Amada amante” e Bee Gees—Lonely Days entre tantas outras lindas músicas do momento.

Estava calçada, muito triste e apreensiva, com um sapato Conga, branco com fitilhos no lugar do cadarço cor-de-rosa. Cheguei atrasada e minha mãe já se encontrava na cadeira a minha espera. Tinha fugido, pela última vez de casa, para me despedir de algo que levaria comigo para sempre.

Quem me olhava via uma menina que, apesar da rebelde, nunca quis esconder a imagem, estereotipada feminina, gostava de ser mulher enfeitada de rosa ou da cor que quisesse, chorar a hora que me covilhense, ser frágil sendo forte, conforme o contexto.

Meus cabelos já estavam curtos, bem curtos como se quisessem cortar aquela etapa tão dolorida e ao mesmo tempo desejada por mim… sair da minha cidade, deixar meus amigos, minhas ruas cheias dos meus passos era um pouco demais para aquela moça magra e confiante, apesar de inocente, até então.

Dormia no pensionato com uma estudante que era apaixonada por Chico Buarque de Holanda e que por isso forrava a parede, em frete a minha cama, com fotos coloridas, do moço, me obrigando a sonhar com ele quase todas as noites….

Nas ruas dos primeiros dias do Recife surgiam os telefones públicos até hoje conhecidos como orelhões. Mas ainda não conseguia ligar direto para casa! Era preciso pedir um interurbano dar o número e esperar o milagre de ouvir uma voz desejada e distante.

Os recém-lançados aparelhos de TV a cores viam-se em todas as vitrines de lojas da Conde da Boa Vista. A revista Ele e Ela trazia na capa “O Sexo segundo os jovens” e eu ri sozinha por lembrar que até pouco tempo era tabu falar sobre isso… embalada pela voz de Roberto Carlos, cantando detalhe, foleei a revista assim como um revide ao meu passado.

Depois comprei o Compacto Duplo do rei e mandei para Petrolina. De um lado Detalhes do outro Tudo certo como dois e dois são cinco, ou seja, feito para mim.

Os automóveis que circulavam era a Veraneio (os Coelhos tinham uma), o Volks SP (um esportivo da Volkswagen por quem fiquei apaixonada), o Corcel GT, o Galaxie e o Opala Cupê SS. Surgindo também o Brasília.

Na TV via-se as séries norte-americanas como Bat Masterson, Família Dó Ré Mi, Batman, Daniel Boone e Terra de Gigantes.

Francisco Cuoco e Regina Duarte eram sucessos garantidos de audiência. Ele pelo jeito galã e ela pela sua feminilidade e beleza era chamada a “namoradinha do Brasil” faziam os papéis principais, Selva de Pedra salvo engano.

Fui ao São Luis assisti Cabaré, O Destino do Poseidon e O Poderoso Chefão. Nesse cinema assisti vários filmes, era meu caminho para casa quando passei a morar em Boa Viagem. Certa feita quando ia super atrasada, num sábado à tarde, para o ESUDA, para fazer um simulado quis cortar caminho entrando por trás do São Luiz. A rua estava lotada por cadeiras e mesas com jovens que bebiam e conversavam animadamente. Nos braços trazia os livros e cadernos, no ombro a bolsa… O vestino era um vermelho curto de estrelas brancas trespassados, o cabelo já bem comprido estava atado com uma presilha. Foi quando senti uma forte ventania, para não cair os livros segurei-os fortemente de encontro ao peito. O cabelo desatou e foi todo para frente, o vestido abriu-se completamente e eu fiquei ali a mercê dos gentis rapazes que sem dó nem piedade diziam: calma menina, eu pego seus livros, outro completando eu pego seus cabelos e eu, só de raiva ou com a força da timidez (se é que existe), larguei tudo no chão, prendi os cabelos o vestido, peguei os livros, levantei o queixo e fui embora brigando com o vento! Até hoje quando passo por perto lembro daquele episódio e associo aos ventos de Petrolina quando usavam da mesma malvadeza e levantavam minha saia próximo a catedral.

Estudava ao som dos cantores Jorge Ben, Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Caetano Veloso e o grupo Novos Baianos que frequentemente tocavam nas rádios da época. A foi Elis Regina, fazia enorme sucesso com os clássicos: Águas de Março, Casa no Campo e Nada Será Como Antes.

Em 1972 os Novos Baianos, lança Acabou Chorare, considerado um dos melhores trabalhos da MPB da história. O grupo era formado por Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo que trazia nos cabelos as cores do arco ires e era tida pelas puritanas do pensionato, onde morava, como perdida… Até hoje canto com o mesmo entusiasmo as músicas Brasil Pandeiro e Preta Pretinha.

Assisto encantada Michael Jackson cantando seu sucesso mundial Ben e fico a imaginar se aquela criança iria, continuar com aquela voz. Mas a música romântica que mais me animava e fazia esquecer ou melhor, mandar as lembranças de Petrolina para longe o fundo do meu coração era Rock and Roll Lullaby, de B. J. Thomas.

Abismada olhava aquelas moças, quando saia tarde do ESUDA, colégio que estudava e percorria grande parte da Conde da Boa Vista, às 19:00 h com roupas supercurtas, calcinhas da cor dos vestidos a se pendurarem nas portas dos carros que passavam vagarosamente. Achava-as corajosas além de, claro, desinibidas.

Depois descobri que eram profissionais do sexo fazendo “Trottoir”… Isso era mais uma novidade para mim, ainda não se via nada igual na Petrolina que deixei. Fiquei perplexa enquanto a colega sorria da minha cara!

Podíamos fazer compras em lojas de departamento como Lobras, Americanas, Mesbla e Viana Leal, hoje sou amiga da filha do dono da loja, uma linda e competente psiquiatra. Na época quando tinha algum dinheiro ia comer uma banana split em uma casa de chá muito chic que tinha perto, enquanto ouvia-se um bom piano. Foi então que aprendi a gostar de chá, era mais barato e me proporcionava a mesma alegria. No pensionato usavam eletrodomésticos e eletroeletrônicos como as geladeiras Prospérrimo, a TV Telefunken e o aparelho de som Polivox.

Depois de algumas ida e vindas a Petrolina, fui me envolvendo com a grande cidade… Já não achava o mar tão agressivo, mas, o rio São Francisco ele jamais conseguiu substituir e afora os familiares era o único que me esperava.





Amanhecer

Na vida temos que agradecer o dia. O dia que amanhece indiferente as nossas emoções e expectativas, mas, que está sempre presente a nos oferecer mais uma opção de vida...
Querer seguir e como seguir é, apenas, uma questão nossa. Muitas vezes dolorida, magoada, revoltada, com aquela vontade de terminar o dia que mal começou ou, apesar de tudo, enfrentá-lo de cabeça erguida, lembrando outros momentos e fatos, em nossas vidas, que ajudaram a superar desencantos, perspectivas, negatividades de todas as formas...
E, depois, como num passe de mágica tudo passa! E é como se, o sol, só naquele momento existisse aparecendo e nos aquecendo com sua luz ou lembrança... fazemos inconscientemente o movimento de rotação da Terra, ficamos girando no nosso próprio “eixo” deixando de aquecer as partes vitais dos nossos corpos. Mas, acredito, que nossa alma continua lá, exposta ao sol nos impedindo de nos afastarmos de vez...
Sim, tudo pode acontecer numa noite de lua, numa linda noite de lua, também, indiferente a você… E muito mais fria que o nosso sol. Talvez por ser mulher, muito mais emotiva, ela já afrouxou seu abraço e se distância de nós, os descrentes e ingratos amantes… Mas sabemos que diferente da Lua, ele nunca se afasta de nós.
No íntimo, bem lá no íntimo, e apesar de toda nossa rebeldia, sabemos que não estamos sós, que a nossa luz, naquele momento angustiante, quase apagada, recebe e se agarra a uma outra Luz que a aquece e permite que ela volte a brilhar muito mais forte! Então vamos fazer um esforço diário, vamos olhar o sol de cada dia, sentir seu calor pois, mesmo ele em dias “ausentes”, seus raios incidem sobre nós, nos alimentando de vida e poesia...
Como nos dias felizes e esperançosos ele, o sol, continuará lá a nos acompanhar em todos os momentos das nossas vidas.
O nosso Sol maior nunca o deixa faltar em nossas vidas, mesmo nos momentos mais angustiantes ele estará lá cumprindo sua sina...

Umburana de Cheiro

segunda-feira, 13 de março de 2017

Petrolina saudosa menina
ousada, inteligente e criativa
fez-me moça, mulher toda vaidosa
ao lado do seu amor mais antigo
E assim passaram-se os anos
e cada dia ficas mais luminosa
mas, com a riqueza vem a vaidade
e com a vaidade a indiferença dos orgulhosos
que esquecem os seus filhos mais amados
e abraçam mais os mais novos….
Como toda mãe acreditas e justificas
que ampara o filho mais necessitado,
mas que ama a todos igualmente
sejam eles belos, feios, nobres ou pobres
Seus filhos primogênitos lhe reclamam
mãe amada, linda e graciosa
quer de volta os carinhos usurpados
teu regaço e teu seio de outrora

Umburana de Cheiro
Na vida tudo é provisório
não se iluda com a aparente conquista
Fogo-fátuo que brilha e logo depois desaparece
Quimeras de ouro, beleza, tesouro….
Nada levas….
E quanto mais juntas, mais pesa
Não sofras pelo que se foi, que por si só, se consumiu
alegra o teu coração, oh viajante das estrelas!
Pois ainda tens muito a percorrê-las para desgastar a tua pesada armadura….
E só quando te sentires completamente leve,
pobre, nu, despojado e livre de todos os desejos mundanos
sem dores e angustias,
compreenderas a gradeza das tuas conquistas
não serás mais nem aquele e nem aquela,
apenas luz….


Umburana de Cheiro
Na vida tudo tem um porque, a quântica já provou dizem aqueles que tem o sistêmico como uma verdade. Eu fico então a me perguntar por que tanta ingratidão, falta de compaixão ou simplesmente indiferença com o outro? Se somos, nessa lógica, uno, então somos imediatamente responsáveis pelo outro.
Por que não temos tempo, paciência, ou simplesmente, visão para enxergar aquele que tão próximo está de nós?
Na nossa pressa somos tomados de uma miopia absurda que aos poucos vai minando o coração e nos transformando em pessoas vazias ou frias a quem, para justificar ou explicar, chamamos de pragmáticas… Será?
Seria pragmatismo lembrar do outro só quando dele precisamos? Ou quando de tão próximos que eles estão, a nossa visão é obrigada a vê-lo?
Não sei… Sei apenas que a tristeza no olhar de algumas pessoas denotam justamente a falta de companhia, de solidariedade e mesmo quando sorriem é como se fossem banguelas…
Por outro lado nota-se cada vez mais a agilidade a esperteza nossa e do outro para sobreviver essa problemática.
Procura-se vantagem em tudo e é tudo tão automático que muitos não sentem quando, na sua miopia, ocupam, conseguem mais do que precisam. Se olharmos em um estacionamento, os gratuitos e os particulares, encontramos carros ocupando vagas em excesso, nas filas os compadrios são exercidos sem se preocupar com quem está no final…
Nas escolas a lei da maior nota, prova a capacidade de passar ou não passar de ano… Quem consegue ficar a cima de sete são criaturas capazes, quem fica abaixo de sete são incapazes favorecendo a lei do mais esperto. Não precisa saber, basta copiar e colar para ser promovido… Certo dia estava eu em uma fila de supermercado. Na minha frente três jovens rapazes a conversar alto e sorrir, como é próprio dos jovens. Eles falavam da vantagem de ter carro, computador, internet… Um fazia economia e os outros dois, engenharia em faculdades federais…
Eram rapazes de classe média alta e que certamente vinham de uma escola particular do curso médio para acessarem cursos nas federais de elite. Suas roupas e vocabulário chamavam a atenção, vez ou outra aparecia um tema interessante da atualidade e eles discutiam animadamente...
Um deles jogava basquete e nas horas vagas pegava o carro do pai e colocava como Uber e com o dinheiro financiava as baladas, os outros se envolviam em pesquisas para de posse das bolsas se autofinanciarem…
- Como vocês conseguem participar das pesquisas dos professores? Perguntou um deles…
- Fácil, somos amigos, estamos sempre à disposição deles… ganhamos no papo!
Nada demais até então e até louvável a conversa dos rapazes, retirando a parte da “sedução” aos professores. Mas ai surgiu algo que não pode faltar no “papo” estudantil as provas e os trabalhos… Todos eles eram usuários contumaz do Google! Copiar e colar… Coletar provas dos anos anteriores levar e das mais variadas formas repassar as respostas… A quem esses rapazes querem enganar? Cada um contando suas vantagens em relação ao tema. Dando exemplos e criticando aqueles que não utilizavam dessas tecnologias…
E quanto ao professor? Segundo eles nunca descobriam. Ou não liam, ou não tinham tempo para pesquisarem ou se atrapalhavam diante de tantas respostas para conferir… Fiquei pensando naqueles futuros profissionais… E em quem depende deles… E, claro, em nós. Umburana de CheiroResultado de imagem para jovens
Quando o corpo treme e a alma arrepia
a garganta fecha e a mente
anuncia
a tua chegada enfemera, vazia...
Rezo aos santos e arcanjos
canto cantos e faço encantos
para ti transfigurar
E na hora mais esperada
quando por quase nada
lhe vejo recomeçar
aquela fala traiçoeira
que nos afasta e nos magoa
fico a duvidar
Será que o jugo dos
maldito
daqueles que mal nos desejam
vai enfim comemorar?

Umburana de Cheiro

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida, 
Eu sou a que na vida não tem norte, 
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte 
Sou a crucificada ... a dolorida ... 

Sombra de névoa ténue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte, 
Impele brutalmente para a morte! 
Alma de luto sempre incompreendida! ... 


Sou aquela que passa e ninguém vê ... 
Sou a que chamam triste sem o ser ... 
Sou a que chora sem saber porquê ... 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 
Alguém que veio ao mundo pra me ver 
E que nunca na vida me encontrou! 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"
Se você soubesse das marcas da minha alma
ficaria mais próximo a mim
não me deixaria tão triste assim
Antes de mais nada
veria nos meus olhos as ausências
das carícias negadas nas longas noites
de inverno
Se você soubesse das marcas da minha alma
ficaria mais próximo a mim
não se afastaria tanto assim
Correria para os meus braços
assim como quem pede perdão
traria flores, sorrisos e me tomaria pelas
mãos
Se você soubesse das marcas da minha alma
ficaria mais próximo a mim
não se afastaria tanto assim
Não iria embora
antes do sol raiar
semearia no jardim das nossas vidas,
esperaria o outono chegar e só depois de colher os
frutos, sentir o sabor dos frutos,
pensaria em me deixar
Se você soubesse das marcas da minha alma
ficaria mais próximo a mim
traria sua alma para perto da minha alma
deixaria que elas encontrassem a calma e
se completassem por fim


Umburana de Cheiro

quarta-feira, 8 de março de 2017

Meu amor, não se iluda!

Meu amor não se iluda
o que você ver é real,
Real como são as luzes das estrelas
aquelas que mal pode vê-las…
Real tão quanto são as aves no céu, as cantam e encantam
e as que apenas cantam ou encantam…
Real igual aos risos dos opulentos
aqueles que em todo momento
falam de paz e não as tem
Real feito a fome da criança, a sede e a ignorância
daqueles a quem convém
Real feito o mito criado e nutrido e que por
esquecimento ou por puro desleixamento
seus pés de barro criou...
Real igual ao mar azul que um dia se unio ao céu
e uma estrela criou…
Real feito a água da fonte, que nada sabe de si
da própria cor, do cheiro ou sem cheiro e de nós dela servir
Real assim como os homens gordos que trazem a boca torta
de tanto cachimbo que fumou
Real como eu e você, aqui sem mais nem porque
a pensar no nosso amor….

Umburana de Cheiro

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher – Maria da Penha, a mulher que si fez ouvir.
É imperdoável não lembrar de Maria da Penha, cearense, mãe de três filhas, que levou, do próprio marido, um tiro nas costas enquanto dormia. O disparo, efetuado por Marco Antonio Heredia Viveros, colocou-a em uma cadeira de rodas.

Esperou 20 anos para ver seu agressor punido! Mesmo paraplégica continuou lutando durante todo tempo para vê-lo, apenas por 16 meses em regime fechado mesmo condenado em dois julgamentos anteriores.

Recebeu apoio do Cladem (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) e do Cejil (Centro pela Justiça e o Direito Internacional) e o Brasil foi denunciado na OEA (Organização dos Estados Americanos) por sua tolerância e omissão nos casos de violência contra a mulher. Condenado, o país foi obrigado a cumprir recomendações e alterar sua legislação para a prevenção e a proteção da mulher em situação de violência doméstica, com a punição do agressor.

Então finalmente em 7 de agosto de 2006, a lei nº 11.340, conhecida também como Lei Maria da Penha, foi sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Graças a essa mulher corajosa, nordestina, brasileira, todas as mulheres foram beneficiadas. O país onde suas mulheres e meninas são vitimadas de preconceitos, estupros, nos seus próprios lares e em todas as classes sociais, finalmente encontra o cominho para a libertação das mulheres. Sim, libertação. Somos todas escravas do machismo, sexismo, ignorância, subemprego…
Ainda não está bom e muito longe da perfeição, mas não podemos esperar que o torturador desista ou se apiede de nós. É preciso continuar a luta desta guerreira, desta Joana D'Arc brasileira e exigir que a Lei seja realmente cumprida.

É preciso brigar por educação de qualidade para todos para que cada dias mais essas vítimas conheçam seus Direitos e tenham a coragem de dizer NÃO!

Umburana de Cheiro

O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO

A lei nº 11.340/2006 estabelece que violência doméstica (física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral) é crime e prevê que a Justiça conceda medidas para garantir a proteção das vítimas, em até 48 horas após a notificação –o que não acontece em muitos casos.

Algumas dessas medidas de proteção são: afastamento do lar; limite de aproximação e proibição de contato com a vítima, familiares e testemunhas; proibição de presença em determinados lugares e restrição de visitas aos dependentes menores.

Um levantamento feito pela Folha, publicado no aniversário de dez anos da lei, mostrou que apenas 28 municípios –de 5570– têm policiamento específico para mulheres. Outro problema refere-se ao atendimento. Na cidade de São Paulo, apenas uma Delegacia da Mulher atende 24h, o que é motivo de reivindicação por parte de ativistas.

Apesar de a lei ser um mecanismo importante em defesa da mulher, ela também enfrenta problemas de fiscalização de seu cumprimento, como revelou reportagem da Folha, na qual uma vítima viu o ex-marido burlar 15 vezes uma medida protetiva concedida pela Justiça.

Os casos relacionados à Lei Maria da Penha no Estado de SP cresceram 131% nos últimos quatro anos. Em 2013, havia 18.600 processos à espera de uma decisão e, no fim de 2016, a quantidade chegava a 42.900. No período, houve também mais sentenças proferidas pelos juízes –o total saltou de 5.600 para 16 mil. Os números são do “Anuário da Justiça São Paulo 2017” –com publicação prevista para esta quarta (8)–, como adiantou a coluna da Mônica Bergamo em 22 de fevereiro.

INSTITUTO MARIA DA PENHA

Maria da Penha, hoje com 71 anos, é fundadora do instituto que leva seu nome, uma organização não governamental, sem fins lucrativos, que tem como objetivo a conscientização das mulheres sobre os seus direitos e o fortalecimento da lei que leva o seu nome.

ONDE PROCURAR AJUDA?
No Brasil, onde uma em três mulheres diz ter sido vítima de violência no último ano, como revela pesquisa do Data folha, as vítimas podem se dirigir a delegacias especializadas para realizar denúncias. Centros de Referência a Mulheres em Situação de Violência (CRMs) também oferecem atendimento psicológico, social e jurídico.


Para saber mais:


https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/95552/lei-maria-da-penha-lei-11340-06

Não


Diga não
ao se sentir ofendida,
diminuída,
desprezada,
esquecida!
Diga não
Quando não estiver com vontade!
Quando estiver com vontade,
quando se sentir constrangida,
quando se sentir renegada!
Quando se sentir relegada!
Diga não a
quem lhe explora,
quem lhe humilha,
aos preconceitos
e aos preceitos
machistas,
feministas e
contra seus princípios!
Diga não
a aqueles que não a ama,
aqueles que a ama,
E aquele a quem ama
a depender da situação,
amar, também, é dizer não!
Umburana de Cheiro

A Bela e a fera ou A ferida grande demais, Clarice Lispector

Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace Hotel. O chofer não estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a "seu" José para vir buscá-la às cinco, não calculando que não faria as unhas dos pés e das mãos, só a massagem. Que devia fazer? Tomar um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera que nunca se deve andar sem nenhum dinheiro. Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro. Mas - mas era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela - com outros, e nesses outros ela se refletia e os outros refletiam-se nela. Nada era – era puro, pensou sem se entender. Quando se viu no espelho – a pele trigueira pelos banhos de sol faziam ressaltar as flores douradas perto do rosto nos cabelos negros – conteve-se para não exclamar um “ah!” – pois ela era cinqüenta milhões de unidades de gente linda. Nunca houve – em todo o passado do mundo – alguém que fosse como ela. E, depois, em três trilhões de trilhões de ano – não haveria uma moça exatamente como ela.
“Eu sou uma chama acesa! E rebrilho e rebrilho toda essa escuridão!”
Este momento era único – e ela teria durante a vida milhares de momentos únicos. Até suou frio na testa, por tanto lhe ser dado e por ela avidamente tomado.
“A beleza pode levar à espécie de loucura que é a paixão.” Pensou: “estou casada, tenho três filhos, estou segura.”
Ela tinha um nome a preservar: era Carla de Sousa e Santos. Eram importantes o “de” e o “e”: marcavam classe e quatrocentos anos de carioca. Vivia nas manadas de mulheres e homens que, sim, que simplesmente “podiam”. Podiam o quê? Ora, simplesmente podiam. E ainda por cima, viscosos pois que o “podia” deles era bem oleado nas máquinas que corriam sem barulho de metal ferrugento. Ela, que era uma potência. Uma geração de energia elétrica. Ela, que para descansar usava os vinhedos do seu sítio. Possuía tradições podres mas de pé. E como não havia nenhum novo critério para sustentar as vagas e grandes esperanças, a pesada tradição ainda vigorava. Tradição de quê? De nada, se se quisesse apurar. Tinha a seu favor apenas o fato de que os habitantes tinham uma longa linhagem atrás de si, o que, apesar de linhagem plebéia, bastava para lhes dar uma certa pose de dignidade.
Pensou assim, toda enovelada: “Ela que, sendo mulher, o que lhe parecia engraçado ser ou não ser, sabia que se fosse homem, naturalmente seria banqueiro, coisa normal que acontece entre os “dela”, isto é, de sua classe social, à qual o marido, porém, alcançara com muito trabalho e que o classificava de “self made man” enquanto ela não era uma “self made woman”. No fim do longo pensamento, pareceu-lhe que – que não pensara em nada.
Um homem sem uma perna, agarrando-se numa muleta, parou diante dela e disse:
- Moça, me dá um dinheiro para eu comer?
“Socorro!!!” gritou-se para si mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem. “Socorre-me, Deus”, disse baixinho.
Estava exposta àquele homem. Estava completamente exposta. Se tivesse marcado com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel que ficava o cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse. Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie. Pelo menos de espécie diferente da dela. “Da dela?” “Que espécie de ela era para ser ‘da dela’?” Ela – os outros. Mas, mas a morte não nos separa, pensou de repente e seu rosto tomou ar de uma máscara de beleza e não beleza de gente: sua cara por um momento se endureceu.
Pensamento do mendigo: “essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa, ou não me dá ou me dá muito pouco”. O correu-lhe então, um pouco cansado: “ou dá quase nada”.
Ela espantada: como praticamente não andava na rua – era de carro de porta à porta – chegou a pensar: ele vai me matar? Estava atarantada e perguntou:
- Quanto é que se costuma dar?
- O que a pessoa pode dar e quer dar - respondeu o mendigo espantadíssimo.
Ela, que não pagava o salão de beleza, o gerente deste mandava cada mês sua conta para a secretária do marido. “Marido”. Ela pensou: o marido o que faria com o mendigo? Sabia que: nada. Eles não fazem nada. E ela – ela era “eles” também. Tudo o que pode dar? Podia dar o banco do marido, poderia lhe dar seu apartamento, sua casa de campo, suas jóias...
Mas alguma coisa que era uma avareza de todo o mundo, perguntou:
- Quinhentos cruzeiros basta? É só o que eu tenho.
O mendigo olhou-a espantado.
- Está rindo de mim, moça?
- Eu?? Não estou não, eu tenho mesmo os quinhentos na bolsa...
Abriu-a, tirou-lhe a nota e estendeu-a humildemente ao homem, quase lhe pedindo desculpas.
O homem perplexo.
E depois rindo, mostrando as gengivas quase vazias:
- Olhe – disse ele -, ou a senhora é muito boa ou não está bem da cabeça... Mas, aceito, não vá dizer depois que roubei, ninguém vai me acreditar. Era melhor me dar trocado.
- Eu não tenho trocado, só tenho essa nota de quinhentos.
O homem pareceu assustar-se, disse qualquer coisa quase incompreensível por causa da má dicção de poucos dentes.
Enquanto isso a cabeça dele pensava: comida, comida, comida boa, dinheiro, dinheiro.
A cabeça dela era cheia de festas, festas, festas. Festejando o quê? Festejando a ferida alheia? Uma coisa os unia: ambos tinham uma vocação por dinheiro. O mendigo gastava tudo o que tinha, enquanto o marido de Carla, banqueiro, colecionava dinheiro. O ganha-pão era a Bolsa de Valores, e inflação, e lucro. O ganha-pão do mendigo era a redonda ferida aberta. E ainda por cima, devia ter medo de ficar curado, adivinhou ela, porque, se ficasse bom, não teria o que comer, isso Carla sabia: “quem não tem bom emprego depois de certa idade...” Se fosse moço, poderia ser pintor de paredes. Como não era, investia na ferida grande em carne viva e purulenta. Não, a vida não era bonita.
Ela se encostou na parede e resolveu deliberadamente pensar. Era diferente porque não tinha o hábito e ela não sabia que pensamento era visão e compreensão e que ninguém podia se intimar assim: pense!
Bem. Mas acontece que resolver era um obstáculo. Pôs-se então a olhar para dentro de si e realmente começaram a acontecer. Só que tinha os pensamentos mais tolos. Assim: esse mendigo sabe inglês? Esse mendigo já comeu caviar, bebendo champanhe? Eram pensamentos tolos porque claramente sabia que o mendigo não sabia inglês, nem experimentara caviar e champanhe. Mas não pôde se impedir de ver nascer em si mais um pensamento absurdo: ele já fez esportes de inverno na Suíça?
Desesperou-se então. Desesperou-se tanto que lhe veio o pensamento feito de duas palavras apenas “Justiça Social”.
Que morram todos os ricos! Seria a solução, pensou alegre. Mas – quem daria dinheiro aos pobres?
De repente – de repente tudo parou. Os ônibus pararam, os carros pararam, os relógios pararam, as pessoas na rua imobilizaram-se – só seu coração batia, e para quê?
Viu que não sabia gerir o mundo. Era uma incapaz, com cabelos negros e unhas compridas e vermelhas. Ela era isso: como uma fotografia colorida fora de foco. Fazia todos os dias a lista do que precisava ou queria fazer no dia seguinte – era desse modo que se ligara ao tempo vazio. Simplesmente ela não tinha o que fazer. Faziam tudo por ela. Até mesmo os dois filhos – pois bem, fora o marido que determinara que teriam dois...
“Tem-se que fazer força para vencer na vida”, dissera-lhe o avô morto. Seria ela, por acaso, “vencedora”? Se vencer fosse estar em plena tarde clara na rua, a cara lambuzada de maquilagem e lantejoulas douradas... Isso era vencer? Que paciência tinha que ter consigo mesma. Que paciência tinha que ter para salvar a sua própria vida. Salvar de quê? Do julgamento? Mas quem julgava? Sentiu a boca inteiramente seca e a garganta em fogo – exatamente como quando tinha que se submeter a exames escolares. E não havia água! Sabe o que é isso – não haver água?
Quis pensar em outra coisa e esquecer o difícil momento presente. Então lembrou-se de frases de um livro póstumo de Eça de Queirós que havia estudado no ginásio: “O lago de Tiberíade resplandeceu transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de pórfiro, e alvos terrenos por entre os palmares, sob o vôo das rolas.”
Sabia de cor porque, quando adolescente, era muito sensível a palavras e porque desejava para si mesma o destino de resplendor do lago de Tiberíade.
Teve uma vontade inesperadamente assassina: a de matar todos os mendigos do mundo! Somente para que ela, depois da matança, pudesse usufruir em paz seu extraordinário bem-estar.
Não. O mundo não sussurrava.
O mundo gri-ta-va!!! Pela boca desdentada desse homem.
A jovem senhora do banqueiro pensou que não ia suportar a falta de maciez que se lhe jogavam no rosto tão maquilado.
E A festa? Como diria na festa, quando dançasse, como diria ao parceiro que a teria entre os braços... O seguinte: olhe, o mendigo também tem sexo, disse que tinha onze filhos. Ele não vai a reuniões sociais, ele não sai nas colunas do Ibrahim, ou do Zózimo, ele tem fome de pão e não de bolos, ele na verdade só quer comer mingau pois não tem dentes para mastigar carne... “Carne?” Lembrou-se vagamente que a cozinheira dissera que o “filet mignon” subira de preço. Sim. Como poderia ela dançar? Só se fosse uma dança doida e macabra de mendigos.
Não, ela não era mulher de ter chiliques e fricotes e ir desmaiar ou se sentir mal. Como algumas de suas “coleguinhas” de sociedade. Sorriu um pouco ao pensar em termos de “coleguinhas”. Colegas em quê? Em se vestir bem? Em dar jantares para trinta, quarenta pessoas?
Ela mesma aproveitando o jardim no verão que se extinguia dera uma recepção para quantos convidados? Não, não queria pensar nisso, lembrou-se (por que sem o mesmo prazer?) das mesas espalhadas sobre a relva, a luz de vela... “luz de vela”? pensou, mas eu estou doida? Eu caí num esquema? Num esquema de gente rica?
“Antes de casar era de classe média, secretária do banqueiro com quem se casara agora e agora – agora luz de velas. Estou é brincando de viver, pensou, a vida não é isso.”
“A beleza pode ser de uma grande ameaça.” A extrema graça se confundiu com uma perplexidade e uma funda melancolia. “A beleza assusta”. “Se eu não fosse tão bonita teria tido outro destino”, pensou ajeitando as flores douradas sobre os negríssimos cabelos.
Ela uma vez vira uma amiga inteiramente de coração torcido e doído e doido de forte paixão. Então não quisera nunca experimentar. Sempre tivera medo das coisas belas demais ou horríveis demais: é que não sabia em si como responder-lhes e se responderia se fosse igualmente bela ou igualmente horrível.
Estava assustada quando vira o sorriso de Mona Lisa, ali, à sua mão no Louvre. Como se assustara com o homem da ferida ou com a ferida do homem.
Teve vontade de gritar para o mundo: “Eu não sou ruim! Sou um produto nem sei de quê, como saber dessa miséria de alma.”
Para mudar de sentimento – pois que ela não os agüentava e já tinha vontade de, por desespero, dar um pontapé violento na ferida do mendigo -, para mudar de sentimentos pensou: este é o meu segundo casamento, isto é, o marido anterior estava vivo.
Agora entendia por que se casara da primeira vez e estava em leilão: quem dá mais? Quem dá mais? Então está vendida. Sim, casara-se pela primeira vez com o homem que “dava mais”, ela o aceitara porque ele era rico e era um pouco acima dela em nível social. Vendera-se. E o segundo marido? Seu casamento estava findando, ele com duas amantes... e ela tudo suportando porque um rompimento seria escandaloso: seu nome era por demais citado nas colunas sociais. E voltaria ela a seu nome de solteira? Até habituar-se ao seu nome de solteira, ia demorar muito. Aliás, pensou rindo de si mesma, aliás, ela aceitava este segundo porque ele lhe dava grande prestígio. Vendera-se às colunas sociais? Sim. Descobria isso agora. Se houvesse para ela um terceiro casamento – pois era bonita e rica -, se houvesse, com quem se casaria? Começou a rir um pouco histericamente porque pensara: o terceiro marido era o mendigo.
De repente perguntou ao mendigo:
- O senhor fala inglês?
O homem nem sequer sabia o que ela lhe perguntara. Mas, obrigado a responder pois a mulher já o comprara-o com tanto dinheiro, saiu pela evasiva.
- Falo sim. Pois não estou falando agora mesmo com a senhora? Por quê? A senhora é surda? Então vou gritar: FALO.
Espantada pelos enormes gritos do homem, começou a suar frio. Tomava plena consciência de que até agora fingira que não havia os que passam fome, não falam nenhuma língua e que havia multidões anônimas mendigando para sobreviver. Ela soubera sim, mas desviara a cabeça e tampara os olhos. Todos, mas todos – sabem e fingem que não sabem. E mesmo que não fingissem iam ter um mal-estar. Como não teriam? Não, nem isso teriam.
Ela era... Afinal de contas quem era ela?
Sem comentários, sobretudo porque a pergunta não durou um átimo de segundo: pergunta e resposta não tinham sido pensamentos de cabeça, eram de corpo.
Eu sou o Diabo, pensou lembrando-se do que aprendera na infância. E o mendigo é Jesus. Mas – o que ele quer não é dinheiro, é amor, esse homem se perdeu na humanidade como eu também me perdi.
Quis forçar-se a entender o mundo e só conseguiu lembrar-se de fragmentos de frases ditas pelos amigos do marido: “essas usinas não serão suficientes”. Que usinas, santo Deus? as do Ministro Galhardo? teria ele usinas? A “energia elétrica... hidrelétrica”?
E a magia essencial de viver – onde estava agora? Em que canto do mundo? No homem sentado na esquina?
A mola do mundo é dinheiro? fez-se ela a pergunta. Mas quis fingir que não era. Sentiu-se tão, tão rica que teve um mal-estar.
Pensamento do mendigo: “Essa mulher é doida ou roubou o dinheiro porque milionária ela não pode ser”, milionária era para ele apenas uma palavra e mesmo se nessa mulher ele quisesse encarnar uma milionária não poderia porque: onde se viu milionária ficar parada de pé na rua, gente? Então pensou: ela é daquelas vagabundas que cobram caro de cada freguês e com certeza está cumprindo alguma promessa?
Depois.
Depois.
Silêncio.
Mas de repente aquele pensamento gritado:
- Como é que eu nunca descobri que sou também uma mendiga? Nunca pedi esmola mas mendigo o amor de meu marido que tem duas amantes, mendigo pelo amor de Deus que me achem bonita, alegre, aceitável, e minha roupa de alma está maltrapilha...
“Há coisas que nos igualam”, pensou procurando desesperadamente outro ponto de igualdade. Veio de repente a resposta: eram iguais porque haviam nascido e ambos morreriam. Eram, pois, irmãos.
Teve vontade de dizer: olhe, homem, eu também sou uma pobre coitada, a única diferença é que sou rica. Eu... pensou com ferocidade, eu estou perto de desmoralizar o dinheiro ameaçando o crédito do meu marido na praça. Estou prestes a, de um momento para o outro, me sentar no fio da calçada. Nascer foi a minha pior desgraça. Tendo já pagado esse maldito acontecimento, sinto-me com direito a tudo.
Tinha medo. Mas de repente deu o grande pulo de sua vida: corajosamente sentou-se no chão. “Vai ver que ela é comunista!” pensou meio a meio o mendigo. “E como comunista teria direito às suas jóias, seus apartamentos, sua riqueza e até os seus perfumes.”
Nunca mais seria a mesma pessoa. Não que jamais tivesse visto um mendigo. Mas – mesmo este era em hora errada, como levada de um empurrão e derramar por isso vinho tinto em branco vestido de renda. De repente sabia: esse mendigo era feito da mesma matéria que ela. Simplesmente isso. O “porquê” é que era diferente. No plano físico eles eram iguais. Quanto a ela, tinha uma cultura mediana, e ele não parecia saber de nada, nem quem era o Presidente do Brasil. Ela, porém, tinha uma capacidade aguda de compreender. Será que estivera até agora com a Inteligência embutida? Mas se ela já há pouco, que estivera em contato com uma ferida que pedia dinheiro para comer – passou a só pensar em dinheiro? Dinheiro esse que sempre fora óbvio para ela. E a ferida, ela nunca a vira tão de perto...
- A senhora está se sentindo mal?
- Não estou mal... mas não estou bem, não sei...
Pensou: o corpo é uma coisa que estando doente a gente carrega. O mendigo se carrega a si mesmo.
- Hoje no baile a senhora se recupera e tudo volta ao normal – disse José.
Realmente no baile ela reverdeceria seus elementos de atração e tudo voltaria ao normal.
Sentou-se no banco do carro refrigerado lançando antes de partir o último olhar àquele companheiro de hora e meia. Parecia-lhe difícil despedir-se dele, ele era agora o “eu” alterego, ele fazia parte para sempre de sua vida. Adeus. Estava sonhadora, distraída, de lábios entreabertos com se houvesse à beira deles uma palavra. Por um motivo que ela não saberia explicar – ele era verdadeiramente ela mesma. E assim, quando o motorista ligou o rádio, ouviu que o bacalhau produzia nove mil óvulos por ano. Não soube deduzir nada com essa frase, ela que estava precisando de um destino. Lembrou-se de que em adolescente procurara um destino e escolhera cantar. Como parte de sua educação, facilmente lhe arranjaram um bom professor. Mas cantava mal, ela mesma sabia e seu pai, amante das óperas, fingira não notar que ela cantava mal. Mas houve um momento em que ela começou a chorar. O professor perplexo perguntara-lhe o que tinha.
- É que eu tenho medo de, de, de, de, cantar bem...
Mas você canta muito mal, dissera-lhe o professor.
- Também tenho medo, tenho medo também de cantar muito, muito mais mal ainda. Maaaaal mal demais! Chorava ela e nunca teve mais nenhuma aula de canto. Essa história de procurar a arte para entender só lhe acontecera uma vez – depois mergulhara num esquecimento que só agora, aos trinta e cinco anos de idade, através da ferida, precisava ou cantar muito mal ou cantar muito bem – estava desnorteada. Há quanto tempo não ouvia a chamada música clássica porque esta poderia tirá-la do sono automático em que vivia. Eu – estou brincando de viver. No mês que vem ia a New York e descobriu que essa ida era como uma nova mentira, como uma perplexidade. Ter uma ferida na perna – é uma realidade. E tudo na sua vida, desde quando havia nascido, tudo na sua vida fora macio como pulo do gato.
(No carro andando)
De repente pensou: nem lembrei de perguntar o nome dele.
1977
In: Lispector, Clarice. A Bela e a Fera, Nova Fronteira, 1979, 131-46.