sábado, 25 de fevereiro de 2017


Uma linda mulher! A conheci cedo, foi a primeira coisa que vi e acredite: me apaixonei… Ela era imensa e linda. Ainda jovem e já distribuída em tantas almas... conseguia cantar e acalentar nas aflições da vida… Enérgica quando necessário, tinha um senso de certeza invejável e sabia exatamente se conduzir pelo olhar…
Dizia ver a alma das possas e ao que me consta, nunca se enganou… Sabia contornar a vida e como um rio ia de obstáculo em obstáculo vencendo a sua partida… Nunca olhava a chegada, se preocupava com o caminho, com os companheiros de ocasião que queriam, por acaso, lhe roubar tempo ou coisa parecida. Era valente, generosa com os despossuídos, aceitava a todos, mas, isso não significava que ao oferecer uma xícara de café, estaria lhe oferecendo espaço para participar da sua vida…
Era extremamente exigente e nunca faltava aos seus, apesar dos seus serem muitos e ao mesmo tempo pouco, queria ver todos sorrindo o seu próprio riso…
Confundia um pouco as coisas, é verdade! Mas como não confundir quando o muito que lhe deram era tão pouco para se? Vivia para sua casa e sua família e eu nem sequer lembro nos quarenta anos de conhecimento, vê-la esbelta, faceira… estava sempre a preparar alguém, sempre a cortar panos brancos, na sua máquina bordando e cantarolando baixinho, sempre a sevar galinhas…
E quando pude vê-la sozinha, nela mesma, já estava disforme. Não totalmente e nem muito menos, estivesse feiamente disforme, continuava bonita aquela beleza encontrada pelos que amam, no ser amado, sempre que o olha. Mas, estava despossuída de muitas alegrias… Mesmo assim, vez em quando, era uma alegria que tomava conta do seu belo rosto, ela cantava alto, se vestia, se perfumava com mais esmero, tornava-se mais bonita, arrumava mais ainda a casa e ia para a sala de espera, esperar (sim até chegar no âmago da sua casa, existiam várias salas… sala de espera, sala de estar, sala de jantar)…
E ai ele chegava a razão da sua vida, então vivia. Abria-se as janelas da casa, era só festas, a vitrola era ligada, pessoas frequentavam a casa, sorria-se de tudo. Até a alimentação modificava, já não tinha apenas três refeições em casa e sim uma só, que era servida o dia todo… Comemorava-se festas da cidade, Natal, Ano Novo, Carnaval, São João e Padroeira…
Lembro de muitas festas, das roupas novas, sapatos novos, amizades novas… visitas… da chuvinha, fina, que insistia em cair na noite de S. João, colocando em risco a fogueira tão esperada...

Até que um dia ele não voltou mais e não adiantou colocar vestido novo, ir para sala de estar, correr ao toque do telefone… Ela foi murchando aos poucos, foi se encolhendo para dentro de se de tal forma que nada mais escapou… não se ouvia mais risos altos, contação de causos, cantorias. Não se comemora mais festas, a vitrola encontra-se esquecida e empoeirada, ficou obsoleta e subutilizada numa sala qualquer da casa…. Umburana de Cheiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário