Uma linda mulher!
A conheci cedo, foi a primeira coisa que vi e acredite: me apaixonei…
Ela era imensa e linda. Ainda jovem e já distribuída em tantas
almas... conseguia cantar e acalentar nas aflições da vida…
Enérgica quando necessário, tinha um senso de certeza invejável e
sabia exatamente se conduzir pelo olhar…
Dizia ver a alma
das possas e ao que me consta, nunca se enganou… Sabia contornar a
vida e como um rio ia de obstáculo em obstáculo vencendo a sua
partida… Nunca olhava a chegada, se preocupava com o caminho, com
os companheiros de ocasião que queriam, por acaso, lhe roubar tempo
ou coisa parecida. Era valente, generosa com os despossuídos,
aceitava a todos, mas, isso não significava que ao oferecer uma
xícara de café, estaria lhe oferecendo espaço para participar da
sua vida…
Era extremamente
exigente e nunca faltava aos seus, apesar dos seus serem muitos e ao
mesmo tempo pouco, queria ver todos sorrindo o seu próprio riso…
Confundia um
pouco as coisas, é verdade! Mas como não confundir quando o muito
que lhe deram era tão pouco para se? Vivia para sua casa e sua
família e eu nem sequer lembro nos quarenta anos de conhecimento,
vê-la esbelta, faceira… estava sempre a preparar alguém, sempre a
cortar panos brancos, na sua máquina bordando e cantarolando
baixinho, sempre a sevar galinhas…
E quando pude
vê-la sozinha, nela mesma, já estava disforme. Não totalmente e
nem muito menos, estivesse feiamente disforme, continuava bonita
aquela beleza encontrada pelos que amam, no ser amado, sempre que o
olha. Mas, estava despossuída de muitas alegrias… Mesmo assim, vez
em quando, era uma alegria que tomava conta do seu belo rosto, ela
cantava alto, se vestia, se perfumava com mais esmero, tornava-se
mais bonita, arrumava mais ainda a casa e ia para a sala de espera,
esperar (sim até chegar no âmago da sua casa, existiam várias
salas… sala de espera, sala de estar, sala de jantar)…
E ai ele chegava
a razão da sua vida, então vivia. Abria-se as janelas da casa, era
só festas, a vitrola era ligada, pessoas frequentavam a casa,
sorria-se de tudo. Até a alimentação modificava, já não tinha
apenas três refeições em casa e sim uma só, que era servida o dia
todo… Comemorava-se festas da cidade, Natal, Ano Novo, Carnaval,
São João e Padroeira…
Lembro de muitas
festas, das roupas novas, sapatos novos, amizades novas… visitas…
da chuvinha, fina, que insistia em cair na noite de S. João,
colocando em risco a fogueira tão esperada...
Até que um dia
ele não voltou mais e não adiantou colocar vestido novo, ir para
sala de estar, correr ao toque do telefone… Ela foi murchando aos
poucos, foi se encolhendo para dentro de se de tal forma que nada
mais escapou… não se ouvia mais risos altos, contação de causos,
cantorias. Não se comemora mais festas, a vitrola encontra-se
esquecida e empoeirada, ficou obsoleta e subutilizada numa sala
qualquer da casa…. Umburana de Cheiro

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