segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


A Primeira Comunhão

Acordei cedo, não era nem seis horas da manhã!
Tinha tido uma noite confuso e nervosa... Era o dia da minha Primeira Eucaristia ou Primeira Comunhão como chamávamos na época.
Deveria ter uns nove anos se muito… Passei e repassei os meus pecados: será que tinha dito todos ao Pe Félix no dia anterior? Ou teria esquecido algum?
A confissão foi traumática pois, por mais que espremesse a cabeça, não encontrava um pecado que merecesse importância: desobedeci mamãe, sai escondido, dei língua a minha mãe, escondido dela, claro! Até falei que tinha dado fila na prova…
Mas, não eram pecados que merecesse tanta deferência! Recebi, quase nenhuma penitência…
Fiquei olhando as mulheres que, depois de mim, foram ao confessionário e figuei cronometrando o tempo que passavam ajoelhadas pagando a penitência.. Aquela ali, bem na minha frente sim, tinha o que contar... Demorou quase meia hora!
E se a hóstia caísse quando eu fosse comungar? Ajoelhei-me e pedi depressa, novamente perdão a Deus, agora, pelos pecados que tinha esquecido…
Mal deu 8h00 sai em disparada para casa de Fátima, minha amiga. Ela, também, faria a Primeira Comunhão... Íamos todas, umas 24 meninas, vestidas de freira. O modelo era o hábito branco comprido, tinha até um crucifixo! Vela, catecismo… O meu era lindo, de capa de madrepérola e na contracapa trazia embutido um tercinho de prata! Lembro que escrevi embaixo do “cofrinho” algo assim: “Ete livro pode ser perdido, mais tambem pode ser achado, para ser bem susedido, trago o meu nome asinado”.
Assim, erradamente… Ali naquela grafia estava registrado uma deficiência que iria, permanecer por toda a vida… Até hoje sofro com o português!
Chegando na casa de Fátima Ferreira, percebi que a minha amiga, também, estava ansiosa… Ela tinha dúvidas em relação aos pecados! Mas, ela era tão santa que podia passar sem o vexame da hóstia cair…
Bem chegando a hora e todas prontas e devidamente paramentadas fomos para a capela do Maria Auxiliadora, onde, graças a Deus não caiu nenhuma hóstia. Terminada a missa a festa! Suspiros, beijos, bolos, tudo branco e muitas fotos…
Esse sacramento foi para mim muito importante, até então eu vivia em um mundo que não temia inferno, que não me vigiava 24 horas por dia… A bíblia, os mandamentos a serem seguidos era os de casa e quando estacávamos, indisciplinados, bastava um olhar de meu pai, para tudo voltar para os eixos.
Bons tempos aqueles… Depois vieram as culpas… Para ir para céu, teria que comungar 9 primeiras sextas-feiras do mês, sem pular nenhuma… Nunca consegui nem quatro… Missa teria que ser assistida pelo menos uma cada semana! E as missas era uma canseira, longas… Depois já mais velha e com mais discernimento melhorou! Mais ainda fico desconfiada de muita coisa…
O padre que fez a minha primeira confissão deixou a batina logo em seguida e foi um escândalo! Falava-se em mula sem cabeça e em danação eterna... Meu Deus quanta intolerância para um povo que Te amava tanto! Quantos coraçõezinhos apertados, temerosos de pecados não cometidos!
O tempo passou e vi que, em se tratando de religião, pouca coisa mudou. Meu filho, mais velho, resolveu fazer sua Eucaristia (já se chamava assim), se preparou e no dia da confissão, notei que ele estava muito inquieto.
Não brincou, não almoçou e sempre preocupado com a hora. Eu, lembrando da minha “trágica” passagem, chamei atenção do meu marido para o fato e pedi para chamá-lo e conversar sobre o assunto.
Não deu outra, ele estava em pavorosa porque, segundo ele, tinha cometido um pecado muito grande e estava com medo de dizer ao padre.
Meu marido então perguntou se ele poderia e queria lhe contar, talvez ele pudesse ajudá-lo, disse. Aliviado ele contou: “acontece que eu matei um pinto! Sem querer, mas, matei. Como é que posso comungar sem contar ao padre?”
Bem, o pai fez uma pequena preleção sobre pecado e sobre Deus e disse que ele poderia ou não contar ao padre. Deus já sabia do ocorrido e sabia, também, que tudo aquilo não tinha sido por maldade, logo não tinha pecado!
Ele ficou tão aliviado que parecia outro menino. Foi fazer sua Eucaristia muito feliz e comemorá-la com bolo branco, suspiros, beijos e fotos!


Umburana de Cheiro

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