A
Primeira Comunhão
Acordei
cedo, não era nem seis horas da manhã!
Tinha
tido uma noite confuso e nervosa... Era o dia da minha Primeira
Eucaristia ou Primeira Comunhão como chamávamos na época.
Deveria
ter uns nove anos se muito… Passei e repassei os meus pecados: será
que tinha dito todos ao Pe Félix no dia anterior? Ou teria esquecido
algum?
A
confissão foi traumática pois, por mais que espremesse a cabeça,
não encontrava um pecado que merecesse importância: desobedeci
mamãe, sai escondido, dei língua a minha mãe, escondido dela,
claro! Até falei que tinha dado fila na prova…
Mas,
não eram pecados que merecesse tanta deferência! Recebi, quase
nenhuma penitência…
Fiquei
olhando as mulheres que, depois de mim, foram ao confessionário e
figuei cronometrando o tempo que passavam ajoelhadas pagando a
penitência.. Aquela ali, bem na minha frente sim, tinha o que
contar... Demorou quase meia hora!
E
se a hóstia caísse quando eu fosse comungar? Ajoelhei-me e pedi
depressa, novamente perdão a Deus, agora, pelos pecados que tinha
esquecido…
Mal
deu 8h00 sai em disparada para casa de Fátima, minha amiga. Ela,
também, faria a Primeira Comunhão... Íamos todas, umas 24 meninas,
vestidas de freira. O modelo era o hábito branco comprido, tinha até
um crucifixo! Vela, catecismo… O meu era lindo, de capa de
madrepérola e na contracapa trazia embutido um tercinho de prata!
Lembro que escrevi embaixo do “cofrinho” algo assim: “Ete livro
pode ser perdido, mais tambem pode ser achado, para ser bem susedido,
trago o meu nome asinado”.
Assim,
erradamente… Ali naquela grafia estava registrado uma deficiência
que iria, permanecer por toda a vida… Até hoje sofro com o
português!
Chegando
na casa de Fátima Ferreira, percebi que a minha amiga, também,
estava ansiosa… Ela tinha dúvidas em relação aos pecados! Mas,
ela era tão santa que podia passar sem o vexame da hóstia cair…
Bem
chegando a hora e todas prontas e devidamente paramentadas fomos para
a capela do Maria Auxiliadora, onde, graças a Deus não caiu nenhuma
hóstia. Terminada a missa a festa! Suspiros, beijos, bolos, tudo
branco e muitas fotos…
Esse
sacramento foi para mim muito importante, até então eu vivia em um
mundo que não temia inferno, que não me vigiava 24 horas por dia…
A bíblia, os mandamentos a serem seguidos era os de casa e quando
estacávamos, indisciplinados, bastava um olhar de meu pai, para tudo
voltar para os eixos.
Bons
tempos aqueles… Depois vieram as culpas… Para ir para céu, teria
que comungar 9 primeiras sextas-feiras do mês, sem pular nenhuma…
Nunca consegui nem quatro… Missa teria que ser assistida pelo menos
uma cada semana! E as missas era uma canseira, longas… Depois já
mais velha e com mais discernimento melhorou! Mais ainda fico
desconfiada de muita coisa…
O
padre que fez a minha primeira confissão deixou a batina logo em
seguida e foi um escândalo! Falava-se em mula sem cabeça e em
danação eterna... Meu Deus quanta intolerância para um povo que Te
amava tanto! Quantos coraçõezinhos apertados, temerosos de pecados
não cometidos!
O
tempo passou e vi que, em se tratando de religião, pouca coisa
mudou. Meu filho, mais velho, resolveu fazer sua Eucaristia (já se
chamava assim), se preparou e no dia da confissão, notei que ele
estava muito inquieto.
Não
brincou, não almoçou e sempre preocupado com a hora. Eu, lembrando
da minha “trágica” passagem, chamei atenção do meu marido para
o fato e pedi para chamá-lo e conversar sobre o assunto.
Não
deu outra, ele estava em pavorosa porque, segundo ele, tinha cometido
um pecado muito grande e estava com medo de dizer ao padre.
Meu
marido então perguntou se ele poderia e queria lhe contar, talvez
ele pudesse ajudá-lo, disse. Aliviado ele contou: “acontece que eu
matei um pinto! Sem querer, mas, matei. Como é que posso comungar
sem contar ao padre?”
Bem,
o pai fez uma pequena preleção sobre pecado e sobre Deus e disse
que ele poderia ou não contar ao padre. Deus já sabia do ocorrido e
sabia, também, que tudo aquilo não tinha sido por maldade, logo não
tinha pecado!
Ele
ficou tão aliviado que parecia outro menino. Foi fazer sua
Eucaristia muito feliz e comemorá-la com bolo branco, suspiros,
beijos e fotos!
Umburana
de Cheiro

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