sábado, 1 de abril de 2017

Até os nove anos não existia o sexo para mim, eramos, todos, crianças e isso satisfazia nossa vida infantil. Acredito que este viver não era uma particularidade minha e sim de todas as crianças da época da nossa Petrolina, também, menina e indiferente a esses pormenores... Brincávamos soltos na rua até tarde e os únicos temores eram, sem dúvidas, os Papa Figos da época.
Por ser muito raquítica era tida como molenga por mais que me esforçasse a correr entre os amigos sempre saia machucada. A bola do barrabol batia forte demais, os puxavancos de cabelos nas brigas me deixavam em petições de miséria... Nunca consegui bater em ninguém! Por fim desisti de brincar onde os meninos estavam, me limitei a brincar de bonecas, sonhar com os causos do meu tio Tonho e decorar músicas de forró (Luiz Gonzaga), para cantar, nas noites de desmancha, no Logo Vem.
E assim o tempo foi passando eu e as amigas se reformando e nos transformando em ninfas, lindas borboletas no frescor da adolescência.
Até então o contato com os meninos se limitava a fazer sacos de pano, para carregar cimento (nos caminhões do meu irmão), trocar bolas de gude (tinha uma porção, apesar de não saber jogar) e depois livro de bolso de terror, faroeste e espionagem. Quem não lembra de Gisele, Bady, a espiã nua que abalou paris da CIA e seu amor agente 001 do FBI?
Um dia, pela manhã, recebi o veredito: você agora é uma mocinha, nada de brincar com meninos….
Foi a deixa para notar que aqueles meninos, conhecidos da infância tinham crescido comigo. Foi um choque!
Passei a observar que muitos tinham uma espécie de bigode e que seus rostos estavam meio azulados. Os olhos já não eram os mesmos quando me fitavam e o andar também tinha mudado.
Agora já não se comportavam como antigamente, relaxados, gritando e chamando a atenção de todos. Estavam sempre sorrindo a socapa e medido as meninas quando por eles passavam…. Já não ficavam a perambular pelas ruas atrás em carrinhos de rolimã ou atrás de uma roda de bicicleta equilibrada por uma espécie de gancho, agachados jogando bola de gude, brigando, soltando pipa, pulando da ponte, jogando bola… Agora eles, nos dias feriados e domingos, quando não estavam com as namoradas, se aglomeravam nas mesas dos bares discutindo coisas de “homens”, fumando e tomando cerveja…
Comecei a me reaproximar e descobri que eram outras pessoas. Mais educados, atenciosos e pasmem não mais me colocavam apelidos e arremedavam a minha fala. Sempre que deles me aproximava mudavam a postura.
Muitos foram embora para Recife ou Salvador, voltando apenas nas férias encantados com a liberdade das moças da grande cidade, mas, negando a mesma liberdade, as moças da sua cidade...
Fui enfim compreendendo que meninos e meninas, quando crescidos, passam a ter sexo e ao se identificarem com o sexo, passam a ter posturas específicas e esperadas pela sociedade.
Naquela Petrolina isso queria dizer, pouca intimidade, ou uma justificativa para estar junto;
– O que você estava fazendo na esquina, conversando com aquele rapaz?
– É um amigo, mamãe
– Quem já se viu, homem ser amigo de mulher? Pare já com isso, ou quer ficar falada? Eles mesmos vão falar de você! Eles se fazem de amigos, mas, depois são os primeiros a falar mal de você. Quem já se viu?
Para completar, por essa época, um dos meus amigos virou homem e sem mais nem menos se disse apaixonado, querendo casar…. Foi um tremendo susto! Aquele menino que brincava comigo, que eu não perdia chance de abraçar, já que era impossível fazer isso com o meu irmão (ele era arredio, não gostava de brincar com meninas), me faz tão triste revelação. Fim da amizade, fim das brincadeiras com os garotos.
Eu sempre fui dada a me aproximar das pessoas, a abraçar, a sorrir sem reservas, a elogiar. Minha mãe, por conta disso foi chamada a Diretoria para ouvir da irmã o comentário que tanto “odiava”.
– Helena, esta menina precisa parar com esses modos, é muito dengosa, fala de forma melosa...
– Mas, irmã, ela é assim mesmo, eu não faço dengo!
E assim fomos criando nas nossas mentes uma certeza trágica: ser mulher é ser diferente, submissa, gostar apenas do namorado, marido e filhos…. Nada de amigo, nada de troca carinhosa de palavras e afetos….
Isso repercutiu nas nossas mentes de tal forma que mesmo quando, jovens adultas, se um amigo se casava nos fastava automaticamente dele.
Olhando, hoje, para os amigos de infância e os da juventude vejo quanto ficamos longe um do outro….
Ainda sou assim. Ainda abraço meus alunos e ex alunos meninos e meninas, filhos de amigos que hoje já são belos homens, amigos de trabalho sem me preocupar, agora, com o que possam pensar….
Dia nesses levei outro susto, abracei uma companheira de Congresso, enquanto a elogiava pelo trabalho desenvolvido e ouvi esta: “para, sou hétero”!
Eu, fiquei aturdida e sem pensar disse e eu sou poli sexual! Uma amiga que estava perto, horrorizada perguntou:
– E existe, também, essa orientação sexual Marisinha?
– Não sei, se não existe, passa a existir agora, pois, eu, como você bem sabe, gosto de todo mundo, me abraço com todos que me relaciono bem, independente de com quem vá para a cama e tamos conversados!
Depois a pobre moça, mais confusa do que eu, no passado, veio pedir desculpas.
– Olha eu fiquei com medo de pensarem que sou lésbica… Hoje é assim, não sabia?
– Não, não sabia e nem quero saber. Quero ter a liberdade de abraçar a todos que gosto e de andar “encangada”, como minha mãe dizia, com as amigas por ai…
Mas, aqui pra nós, ficou uma felpa no meu coração machucado.
Quando vou abraçar quem não me conhece, primeiro pergunto:
– Posso?

Umburana de Cheiro

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