Até
os nove anos não existia o sexo para mim, eramos, todos, crianças e
isso satisfazia nossa vida infantil. Acredito que este viver não era
uma particularidade minha e sim de todas as crianças da época da
nossa Petrolina, também, menina e indiferente a esses pormenores...
Brincávamos soltos na rua até tarde e os únicos temores eram, sem
dúvidas, os Papa Figos da época.
Por
ser muito raquítica era tida como molenga por mais que me esforçasse
a correr entre os amigos sempre saia machucada. A bola do barrabol
batia forte demais, os puxavancos de cabelos nas brigas me deixavam
em petições de miséria... Nunca consegui bater em ninguém! Por
fim desisti de brincar onde os meninos estavam, me limitei a brincar
de bonecas, sonhar com os causos do meu tio Tonho e decorar músicas
de forró (Luiz Gonzaga), para cantar, nas noites de desmancha, no
Logo Vem.
E
assim o tempo foi passando eu e as amigas se reformando e nos
transformando em ninfas, lindas borboletas no frescor da
adolescência.
Até
então o contato com os meninos se limitava a fazer sacos de pano,
para carregar cimento (nos caminhões do meu irmão), trocar bolas de
gude (tinha uma porção, apesar de não saber jogar) e depois livro
de bolso de terror, faroeste e espionagem. Quem não lembra de
Gisele, Bady, a espiã nua que abalou paris da CIA e seu amor agente
001 do FBI?
Um
dia, pela manhã, recebi o veredito: você agora é uma mocinha, nada
de brincar com meninos….
Foi
a deixa para notar que aqueles meninos, conhecidos da infância
tinham crescido comigo. Foi um choque!
Passei
a observar que muitos tinham uma espécie de bigode e que seus rostos
estavam meio azulados. Os olhos já não eram os mesmos quando me
fitavam e o andar também tinha mudado.
Agora
já não se comportavam como antigamente, relaxados, gritando e
chamando a atenção de todos. Estavam sempre sorrindo a socapa e
medido as meninas quando por eles passavam…. Já não ficavam a
perambular pelas ruas atrás em carrinhos de rolimã ou atrás de uma
roda de bicicleta equilibrada por uma espécie de gancho, agachados
jogando bola de gude, brigando, soltando pipa, pulando da ponte,
jogando bola… Agora eles, nos dias feriados e domingos, quando não
estavam com as namoradas, se aglomeravam nas mesas dos bares
discutindo coisas de “homens”, fumando e tomando cerveja…
Comecei
a me reaproximar e descobri que eram outras pessoas. Mais educados,
atenciosos e pasmem não mais me colocavam apelidos e arremedavam a
minha fala. Sempre que deles me aproximava mudavam a postura.
Muitos
foram embora para Recife ou Salvador, voltando apenas nas férias
encantados com a liberdade das moças da grande cidade, mas, negando
a mesma liberdade, as moças da sua cidade...
Fui
enfim compreendendo que meninos e meninas, quando crescidos, passam a
ter sexo e ao se identificarem com o sexo, passam a ter posturas
específicas e esperadas pela sociedade.
Naquela
Petrolina isso queria dizer, pouca intimidade, ou uma justificativa
para estar junto;
–
O que você estava fazendo na esquina, conversando com aquele rapaz?
–
É um amigo, mamãe
–
Quem já se viu, homem ser amigo de mulher? Pare já com isso, ou
quer ficar falada? Eles mesmos vão falar de você! Eles se fazem de
amigos, mas, depois são os primeiros a falar mal de você. Quem já
se viu?
Para
completar, por essa época, um dos meus amigos virou homem e sem mais
nem menos se disse apaixonado, querendo casar…. Foi um tremendo
susto! Aquele menino que brincava comigo, que eu não perdia chance
de abraçar, já que era impossível fazer isso com o meu irmão (ele
era arredio, não gostava de brincar com meninas), me faz tão triste
revelação. Fim da amizade, fim das brincadeiras com os garotos.
Eu
sempre fui dada a me aproximar das pessoas, a abraçar, a sorrir sem
reservas, a elogiar. Minha mãe, por conta disso foi chamada a
Diretoria para ouvir da irmã o comentário que tanto “odiava”.
–
Helena, esta menina precisa parar com esses modos, é muito dengosa,
fala de forma melosa...
–
Mas, irmã, ela é assim mesmo, eu não faço dengo!
E
assim fomos criando nas nossas mentes uma certeza trágica: ser
mulher é ser diferente, submissa, gostar apenas do namorado, marido
e filhos…. Nada de amigo, nada de troca carinhosa de palavras e
afetos….
Isso
repercutiu nas nossas mentes de tal forma que mesmo quando, jovens
adultas, se um amigo se casava nos fastava automaticamente dele.
Olhando,
hoje, para os amigos de infância e os da juventude vejo quanto
ficamos longe um do outro….
Ainda
sou assim. Ainda abraço meus alunos e ex alunos meninos e meninas,
filhos de amigos que hoje já são belos homens, amigos de trabalho
sem me preocupar, agora, com o que possam pensar….
Dia
nesses levei outro susto, abracei uma companheira de Congresso,
enquanto a elogiava pelo trabalho desenvolvido e ouvi esta: “para,
sou hétero”!
Eu,
fiquei aturdida e sem pensar disse e eu sou poli sexual! Uma amiga
que estava perto, horrorizada perguntou:
–
E existe, também, essa orientação sexual Marisinha?
–
Não sei, se não existe, passa a existir agora, pois, eu, como você
bem sabe, gosto de todo mundo, me abraço com todos que me relaciono
bem, independente de com quem vá para a cama e tamos conversados!
Depois
a pobre moça, mais confusa do que eu, no passado, veio pedir
desculpas.
–
Olha eu fiquei com medo de pensarem que sou lésbica… Hoje é
assim, não sabia?
–
Não, não sabia e nem quero saber. Quero ter a liberdade de abraçar
a todos que gosto e de andar “encangada”, como minha mãe dizia,
com as amigas por ai…
Mas,
aqui pra nós, ficou uma felpa no meu coração machucado.
Quando
vou abraçar quem não me conhece, primeiro pergunto:
–
Posso?
Umburana
de Cheiro