quinta-feira, 27 de abril de 2017

Malhadas do destino

Da vida quase nada sei
apenas do canto da sabiá, do galo de campina
do cheiro da terra molhada nas malhadas do destino
Nas terras que um dia deixei o rio andou por lá
hoje restam pegadas amorfas, campos estéreis, saudades ...
O mandacaru teima aqui e ali brota querendo voltar.
Um xique-xique espinhoso, aponta os espinhos esturricados de sol,
sal num deserto sem par
Que foi feito dos pássaros
que viviam a cantar?
Das rosas e das borboletas
coloridas?
Do zoar das abelhas a engravidar as flores?
As águas que, por aqui, correram será
que encontraram o mar?
Uma faveleira morta, mostra a sina do lugar….


Umburana de Cheiro

sábado, 8 de abril de 2017

 Ilusão, doce ilusão
para o bem ou para o mal
podemos transformá-la, destruindo-a e construindo outros sonhos, castelos de fantasias….
Somos privilegiados, temos um corpo físico complexo, uma inteligência inata e uma alma imortal….
Então por que olho para o norte vejo o sol
onde o inverno é perene e profundo?
Onde a dor que sinto vem de
infinitos desertos?
E a minha cura está dentro e não fora?
Ser, somente ser. Sem ruídos...
Ser íntimo de si, conhecedor, fazedor de si
Crinas ao vento, romper da aurora,
vida sem rumo, desafios,
cavalos de troia….
Ilusões, fantasias….


Umburana de Cheiro

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A noite, da janela do meu quarto,
vejo outras noites
outros dias anoitecidos sem findar….
Terão sido tempos perdidos,
esquecidos de lutar?
Num mundo onde nada se perde,
nem o sonho acontece
sem a liberdade pra sonhar?
Não foi por falta de luta
ou por preguiça do dia
quem sabe não foi a noite,
que chegou sem avisar?

Umburana de Cheiro
Ela acordou com o sol queimando as suas pernas, estava ali desde cedo e a beleza do lugar não a deixara sair. Algumas pessoas a tinham convidado a dividir suas barracas, mas, ela, insistira em ficar e agora estava tremendamente queimada de sol... Levantou-se e se dirigiu ao um bar próximo atrás de uma água de coco. Tomou e aproveitou para refrescar o rosto. Depois pegou sua bolsa e saiu rumo ao hotel onde estava hospedada.
Como pode ser tão lindo assim? Se perguntava enquanto tentava mirar o horizonte. Era tudo céu e mar e em cada praia que fora, independente de onde estivesse, o mar se confundia com o céu. Aquela ilha era como um navio a navegar infinitamente no mar sem fim.
Chegando em casa retirou todo o sal do corpo. A água tinha uma densidade diferente, era mais pesada, mais salgada que de onde tinha vindo.
Colocou um short, uma blusa branca, umas rasteirinhas, peteou os longos cabelos e colocou um chapéu. Antes de sair olhou para cama e a vontade de deitar-se a surpreendeu, não vou ceder a esses desejos de desaparecimentos: dormir, ficar embolada na cama lembrando coisas passadas era um voltar para um tempo que não existia mais, pensou. Não iria se permitir a isso novamente, levantou o queixo e saiu.
A claridade a cegou momentaneamente fazendo com que ele esbarrasse em um rapaz que por ali passava.
- Eeeei, calma. Por que a pressa?
- Não é pressa é cegueira momentânea mesmo, respondeu enquanto ria e pedia desculpas
- Nossa mas você tem um sorriso lindo, disse ele.
Por um momento ela pensou em ser indelicada, mas depois lembrando das promessas feitas há pouco, decidiu continuar sorrindo.
- Olha tô indo jantar, não quer se misturar com a gente?
- A gente quem? Respondeu procurando ao redor, outras pessoas
- Meus amigos e minha namorada, eles estão me esperando no restaurante
Ela bem mais animada decidiu ir, por que não? Pensou. Ficou sabendo que o nome dele era Pedro, engenheiro, estava ali para desapegar da rotina estressante da cidade de onde vinha. Ela a apresentou a todos: Renato e Sílvia um casal de amigos que, segundo ele, eram “guardas costas e frentes” deles, devido a atenção que os dispensava.
Findo o jantar sairão para dançar, ela com uma sensação de quem está sobrando entrou no carro e sentou-se próxima a garota, cujo par, estava dirigindo.
Encontraram um Luau muito animado em uma praia bem selvagem onde se entregaram ao som do reggae. Dançaram todos com ela que aos poucos e após algumas doses consumidas, foi sentindo-se mais confiante.
De repente estava em frente a um rapaz muito alto de bermuda florida e um sorriso branco no rosto. Viu-se retribuindo o sorriso e, para se sentir mais independente do grupo, começou a conversar com ele. Estava muito envolvida na música quando ouviu um estranho som que sobressaia dos sons ali ouvidos… Inclinou a cabeça e esperou ouvir novamente.
– Não se assuste, é apenas o mar batendo nas rochas ao lado do bar.
– Mas, tão alto assim?
– Sim, estamos em cima da ponta da rocha, basicamente, e quando a maré enche ouvimos este som que nada mais é do que a passagem da água por uma falha e principalmente em noites de Lua cheia quando o repuxo é mais perceptível, quando a água é empurrada para a praia pelas ondas.
– Deve ser lindo!
- Sim mas, perigoso. O retorno da água chega a derrubar pessoas ou escavar a areia sob seus pés, e puxá-la para águas mais profundas. Quando a arrebentação é grande, uma segunda série pode encontrar a água do repuxo, criando extensa turbulência, muito perigosa e muitas vezes aqui, nesta praia, puxam uma pessoa numa distância muito curta mar adentro é preciso então muito cuidado. As vezes a beleza mata, completou:
– Quero ver!
Sem pensar ele respondeu;
– Vamos.
Saíram de mãos dados e enquanto saia, ela teve o cuidado de acenar para os amigos. A lua estava enorme e seus raios prateados cobriam todo o mar e enchendo-o de estrelas prateadas. A areia brilhava tanto que ela pensou em chorar diante de tanta beleza.
- Vou pisar as estrelas!
- Não se preocupe elas são muitas, pode pisar a vontade, não vai fazer falta, disse ele.
Quando chegaram no local onde o mar batia na rocha ele apontou e disse:
- Olha lá! O mar bate ali na rocha e entra pela falha, saindo pelo outro lado e isso faz esse som diferente.
´ - Estou impressionada daqui e sem os sons do reggae parece um grito! Dizendo isso se aproximou bastante da água.
- Venha cá, chamou ele, não se aproxime tanto! A força da água é muito forte! Dizendo isso a puxou com força para si. Talvez pelas doses de Martíni ingeridas, pela solidão de tantas noites ou pela luz da lua, ela se sentiu atraída para ele de tal forma que se desequilibrou deixa-se aninhar no seu peito e ali mesmo, como um encantamento, eles se possuíram….
Quando por fim, exaustos, felizes e, ainda, sem saberem sequer o nome um do outro, se separaram, ela correu para o mar e gritou já com água na cintura:
- Você que fique ai, eu vou dar um mergulho!
Prontamente ele levantou-se e correu em direção a ela. Mas, não teve tempo de alcançá-la, o mar em repuxo, a abraçou primeiro e em seguida, envolveu-a na sua escuridão. Ele ainda viu o seu belo rosto prateado pela Lua, seus cabelos salpicados de estrelas, e o seu grito de surpresa ao mergulhar para sempre.

Umburana de Cheiro






quarta-feira, 5 de abril de 2017

Dias desses eu estava muito estressada no Shopping, tentando pagar o IPVA que este ano ainda não tinha chegado o carnê na minha casa. Primeiro veio o terror: este ano o IPVA terá que ser pago em janeiro, depois outro informe: a justiça decidiu que o IPVA vai continuar como sempre a depender do número da placa. E nisso o tempo passa e quando vejo final de março e IPVA atrasado. Nada de chegar o carnê. tento pela INTERNET não consigo baixar, vou ao DETRAN e me informam que está em greve e que sim, eu estava atrasada com o IPVA e tenho que retirar pela INTERNET mesmo. A moça, muito solicita, me dá um papelzinho com o passo a passo. Chego em casa, não funciona. O Detran não reconhece o endereço, dois dias depois volto, falo com a moça e sou informada que a greve acabou. De posse dos carnês (meu e do marido) me dirijo ao banco, estou muito concentrada e irritada com tudo aquilo.
De repente escuto um grito: ô mãe! É a voz do meu filho mais velho no meu ouvido. Paro de chofre e olho em todas as direções na esperança de ver os seus olhos, depois, lembro que ele está longe e que tudo não passa do consciente ou inconsciente ou ainda subconsciente me pregando peça. Mãe é assim, está sempre antena em perfeita conexão com os filhos estressada ou não. Vira e mexe o está ouvindo e vendo pessoas parecidas com eles. Acontece também com pessoas a quem queremos bem ou que, de alguma forma, precisam morar na nossa lembrança. Por que será que não vemos, com a mesma frequência, pessoas estranhas, parecidas com os nossos desafetos? Pensei: Isso daria uma boa conversa com lacanianos e froideanos.
Outro dia estava sentada esperando ser atendida em uma Instituição, quando para em minha frente, muito feliz um senhorzinho. Ele olha para mim, cheio de amor diz:
– Zinha! Como vai?
– Eu vou bem, respondo na bucha
– E Dedé, me dê notícias de Dedé, homem, pelo amor de Deus me diga, como vai ele?
- Olha, acredito que ele vai bem, do contrário, o sr saberia não é verdade? Notícias ruins correm
Ele olhou bem para mim e continuou:
- Menina, você não está lembrada de mim? Mudei tanto assim? Sou compadre de Dedé que é casado com Edvirgens... Acredito que sou até seu padrinho.
Ai, eu vi que a coisa estava ficando séria e calmamente falei;
– Por que o Senhor não se senta para conversarmos melhor?
- Não, tô com pressa. Parei apenas para saber do Dedé, Ah meu Deus! Que dia abençoado. E apontava para o céu como em oração. Isso algumas pessoas já olhavam a cena tentando entender.
- Senhor, sinto muito, eu não sou Zinha e mais, não sei de quem o senhor está falando. Eu, francamente, não estou lembrada e não conheço nenhuma dessas pessoas, infelizmente.

Ele pobrezinho, calou-se e depois de me olhar bem, começou a pedir desculpas e a se justificar para as pessoas que sorriam sem dó nem piedade. Enquanto ele se explicava eu ficava pensando: do que ele está se desculpado? Qual o problema se o amor dele pelo compadre é tanto que vê pessoas de seu relacionamento por toda a parte? Imagine a vontade deste velhinho em rever ou saber do amigo querido? Quando dei por mim ele já estava saindo decepcionado enquanto dizia baixinho: é toda a Zinha da Edvirgens, é a cópia fiel….a cópia fiel... Umburana de Cheiro

terça-feira, 4 de abril de 2017

Me deixa seguir.
Amarras, com laços de fitas, os meus pés inquietos,
não vês que quanto mais caminho, mais se distancia o horizonte?
E aquele arco-íris que, fincado, nele está?
Sempre a sorrir e iludir com seu pote de ouro!
Será que está a me convidar
para o festim dos anjos?
Ou apenas espera que a minha vagarosa e indecisa caminhada
me atrase?
Quando meus pobres pés cansados,
o alcançar, encontrará somente resquícios
do seu tesouro…
Tuas fitas já não me importunarão, terão ficado
esgaçadas pelo caminho, distribuídas a mercê dos ventos,
de obstáculo em obstáculo,
opacas,
confusas...
perdidas para sempre!

Umburana de Cheiro

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Nem sei o que pensar ou ainda o que dizer,
sei que a minha vida começou, no dia que vi você...
E lá se vão tantos dias, tantas horas a escorrer e eu aqui imaginando,
o que seria de mim sem você? Umburana de Cheiro

domingo, 2 de abril de 2017

BOLO INTEGRAL DE CENOURA E IOGURTE
Ingredientes
2 xícaras bem cheias de farinha de trigo integral
1 xícara de açúcar
3 cenouras cozidas e amassadas
100 ml de iogurte natural
1 copo de água do cozimento das cenouras, quente, mas não fervendo
3 ovos separados sendo que as claras em neve
1 colher de sopa de fermento químico em pó
1/2 xícara de linhaça em pó.
2/3 de xícara de óleo de milho
Modo de fazer
Cozinhe as cenouras até ficarem macias. Amasse-as com um garfo. Reserve.
Em uma tigela misture a farinha de trigo integral com o óleo, o iogurte e as gemas até formar uma massa homogênea. Acrescente a água quente aos poucos  e a seguir, as cenouras amassadas. Bata com a batedeira até ficar uma massa bem lisa. 
Acrescente o fermento, misture com a batedeira.
desligue a batedeira e coloque as claras em neve incorporando de baixo para cima, lentamente até ficar completamente misturada. Fôrma com furo no meio. Forno em temperatura 180º por 30 minutos.
Obs. Esse bolo pode ser feito na caneca em microondas potência média por 3 minutos  meio. Experimentei e ficou bom.



Para Dora!

Por esses dias tenho sabido de várias partidas... em janeiro passado partiu para a casa do Pai um tio muito querido, foi assim de repente, depois notícias de amigos e parentes que também seguiram... Ainda a semana passada foi uma tia e aos poucos toda geração da minha mãe e pai esta indo embora... Qualquer que seja a forma da ida é sempre dolorosa é uma ida sem volta é um voltar a um estado que se tinha antes de aqui chegar, onde chegada e partida acontecem no mesmo momento. O nosso primeiro grito seria de alegria pela chegada ou dor pela partida que se inicia? Não sabemos, são mistérios ainda a desvendar... O fato é que a cada partida nos sentimos menor, mais fragilizados, mais certos da nossa ida. É como se fosse um lembrete para arrumar a mala de uma viagem que temos certeza que faremos mas, que nunca queremos nela, pensar.. Aqui chegamos sozinhos e nada trazemos, apenas, acredito, uma enorme vontade ou necessidade de amar e nesse nosso caminho reconhecemos pessoas e delas nos aproximamos para construir juntos algo... Muitas vezes pessoas tão estranhas ao nosso cotidiano que ficamos espantados. É como um ímã que nos aproxima de tal forma que fica difícil separar… Seria encontro de almas? Quem sabe? O certo é que nos dispomos a seguir juntos, formar uma família, outras vezes uma missão e assim vamos nos cercando de coisas e pessoas que amamos até que chega a hora e partimos. Nada levamos, mas, muito deixamos... Sempre deixamos... Não queria falar sobre este tema, mais vi ou revi os lindos olhos da minha amiga Dora na sua doce juventude. O encontro da sua alma com a alma daquele que iria lhe proporcionar possibilidades outras, aqui na terra. Não importa o que aconteceu durante o caminho o importante é que viveram tudo que tinham para viver e agora se despedem… Esta minha amiga já nasceu amando Delano e ainda muito jovem não só o reconheceu, como o trouxe para perto de si. Hoje ele voltou e deixou com ela as lembranças daquele doce amor nas figuras dos seus filhos e netos. Que ele chegue em paz a nova morada e que os que aqui ficaram, fragmentos de sua alma, continuem trilhando esta estrada de forma correta e que saibam adubá-la e semeá-la como seus pais e avós semearam…Dora, receba meu abraço fraterno: Marise Helena

Limão

  • Ajuda na digestão e remove as toxinas do aparelho digestivo.
  • Em casos de sentir náuseas, acidez ou indigestão, a água com limão ajuda a neutralizar esses sintomas.
  • Ajuda o sistema imunológico a se tornar mais forte, graças à contribuição da vitamina C.
  • Contém ácido ascórbico, composto por propriedades anti-inflamatórias.
  • O suco do limão é um remédio eficaz na obesidade, mas antes de começar uma dieta exclusiva, o paciente deve beber muita água.
  • Equilibra o pH , por ser um dos alimentos mais alcalinos. O limão ao ser ingerido, e metabolizado pelo organismo se torna alcalino.
  • Ajuda a reduzir  a ingestão de café, já que normalmente ao beber um copo de água com limão a vontade de tomar café é eliminada.
  • Ajuda para refrescar o hálito e aliviar as dores de dentes e gengivites.
  • água com limão ingerida com as refeições reduz o índice de glicose no sangue,  o que ajuda o corpo a diminuir  a sensação de fome e o mantém saciado por muito mais tempo, contribuindo para a perda de peso.

Flores mortas


Não se sinta desapercebida,
desamparada ou esquecida
assim como um laço de fita que vai embora com o vento….
Pense por um momento que o mesmo vento que leva,
trás de volta como um pensamento aquilo que já não se quer lembrar
Ou talvez assim como as folhas que amareladas caem
que só ouve não se vê antes de pisá-las….
Mas, lembre-se bem até mesmo essas folhas que ao leu ai estão,
já foram belas e ainda o são na nova forma de se dar….
Lembre que nada passa invisível
nem o riso, nem o grito
muito menos o seu andar
enquanto a sua alma chora e o seu corpo implora
a natureza quer sua volta
com a força que lhe a trouxe para cá


Umburana de Cheiro

sábado, 1 de abril de 2017

Até os nove anos não existia o sexo para mim, eramos, todos, crianças e isso satisfazia nossa vida infantil. Acredito que este viver não era uma particularidade minha e sim de todas as crianças da época da nossa Petrolina, também, menina e indiferente a esses pormenores... Brincávamos soltos na rua até tarde e os únicos temores eram, sem dúvidas, os Papa Figos da época.
Por ser muito raquítica era tida como molenga por mais que me esforçasse a correr entre os amigos sempre saia machucada. A bola do barrabol batia forte demais, os puxavancos de cabelos nas brigas me deixavam em petições de miséria... Nunca consegui bater em ninguém! Por fim desisti de brincar onde os meninos estavam, me limitei a brincar de bonecas, sonhar com os causos do meu tio Tonho e decorar músicas de forró (Luiz Gonzaga), para cantar, nas noites de desmancha, no Logo Vem.
E assim o tempo foi passando eu e as amigas se reformando e nos transformando em ninfas, lindas borboletas no frescor da adolescência.
Até então o contato com os meninos se limitava a fazer sacos de pano, para carregar cimento (nos caminhões do meu irmão), trocar bolas de gude (tinha uma porção, apesar de não saber jogar) e depois livro de bolso de terror, faroeste e espionagem. Quem não lembra de Gisele, Bady, a espiã nua que abalou paris da CIA e seu amor agente 001 do FBI?
Um dia, pela manhã, recebi o veredito: você agora é uma mocinha, nada de brincar com meninos….
Foi a deixa para notar que aqueles meninos, conhecidos da infância tinham crescido comigo. Foi um choque!
Passei a observar que muitos tinham uma espécie de bigode e que seus rostos estavam meio azulados. Os olhos já não eram os mesmos quando me fitavam e o andar também tinha mudado.
Agora já não se comportavam como antigamente, relaxados, gritando e chamando a atenção de todos. Estavam sempre sorrindo a socapa e medido as meninas quando por eles passavam…. Já não ficavam a perambular pelas ruas atrás em carrinhos de rolimã ou atrás de uma roda de bicicleta equilibrada por uma espécie de gancho, agachados jogando bola de gude, brigando, soltando pipa, pulando da ponte, jogando bola… Agora eles, nos dias feriados e domingos, quando não estavam com as namoradas, se aglomeravam nas mesas dos bares discutindo coisas de “homens”, fumando e tomando cerveja…
Comecei a me reaproximar e descobri que eram outras pessoas. Mais educados, atenciosos e pasmem não mais me colocavam apelidos e arremedavam a minha fala. Sempre que deles me aproximava mudavam a postura.
Muitos foram embora para Recife ou Salvador, voltando apenas nas férias encantados com a liberdade das moças da grande cidade, mas, negando a mesma liberdade, as moças da sua cidade...
Fui enfim compreendendo que meninos e meninas, quando crescidos, passam a ter sexo e ao se identificarem com o sexo, passam a ter posturas específicas e esperadas pela sociedade.
Naquela Petrolina isso queria dizer, pouca intimidade, ou uma justificativa para estar junto;
– O que você estava fazendo na esquina, conversando com aquele rapaz?
– É um amigo, mamãe
– Quem já se viu, homem ser amigo de mulher? Pare já com isso, ou quer ficar falada? Eles mesmos vão falar de você! Eles se fazem de amigos, mas, depois são os primeiros a falar mal de você. Quem já se viu?
Para completar, por essa época, um dos meus amigos virou homem e sem mais nem menos se disse apaixonado, querendo casar…. Foi um tremendo susto! Aquele menino que brincava comigo, que eu não perdia chance de abraçar, já que era impossível fazer isso com o meu irmão (ele era arredio, não gostava de brincar com meninas), me faz tão triste revelação. Fim da amizade, fim das brincadeiras com os garotos.
Eu sempre fui dada a me aproximar das pessoas, a abraçar, a sorrir sem reservas, a elogiar. Minha mãe, por conta disso foi chamada a Diretoria para ouvir da irmã o comentário que tanto “odiava”.
– Helena, esta menina precisa parar com esses modos, é muito dengosa, fala de forma melosa...
– Mas, irmã, ela é assim mesmo, eu não faço dengo!
E assim fomos criando nas nossas mentes uma certeza trágica: ser mulher é ser diferente, submissa, gostar apenas do namorado, marido e filhos…. Nada de amigo, nada de troca carinhosa de palavras e afetos….
Isso repercutiu nas nossas mentes de tal forma que mesmo quando, jovens adultas, se um amigo se casava nos fastava automaticamente dele.
Olhando, hoje, para os amigos de infância e os da juventude vejo quanto ficamos longe um do outro….
Ainda sou assim. Ainda abraço meus alunos e ex alunos meninos e meninas, filhos de amigos que hoje já são belos homens, amigos de trabalho sem me preocupar, agora, com o que possam pensar….
Dia nesses levei outro susto, abracei uma companheira de Congresso, enquanto a elogiava pelo trabalho desenvolvido e ouvi esta: “para, sou hétero”!
Eu, fiquei aturdida e sem pensar disse e eu sou poli sexual! Uma amiga que estava perto, horrorizada perguntou:
– E existe, também, essa orientação sexual Marisinha?
– Não sei, se não existe, passa a existir agora, pois, eu, como você bem sabe, gosto de todo mundo, me abraço com todos que me relaciono bem, independente de com quem vá para a cama e tamos conversados!
Depois a pobre moça, mais confusa do que eu, no passado, veio pedir desculpas.
– Olha eu fiquei com medo de pensarem que sou lésbica… Hoje é assim, não sabia?
– Não, não sabia e nem quero saber. Quero ter a liberdade de abraçar a todos que gosto e de andar “encangada”, como minha mãe dizia, com as amigas por ai…
Mas, aqui pra nós, ficou uma felpa no meu coração machucado.
Quando vou abraçar quem não me conhece, primeiro pergunto:
– Posso?

Umburana de Cheiro